Fala Srio Amor

Thalita Rebouas



7 anos.
Meu primeiro amor.
Eu era to apaixonada pelo Guilherme Almeida desde que tinha uns seis anos de idade. Todo mundo sabia da minha paixo:
minha me sabia, meu pai sabia, meus irmos
sabiam, meus avs sabiam, at a minha professora sabia. Menos ele. Ele estava naquela fase de chegar do recreio suado depois de
correr em campo atrs de uma bola
idiota e de olhar para as garotas como se elas fossem os seres mais repulsivos do planeta. Guilherme Almeida ignorava minha
presena, apesar dos meus olhares apaixonados
e insinuantes.
Foi ele quem me ensinou a fazer o oito. Eu achei o mximo ele saber fazer o oito to perfeitamente com seis anos de idade, em
to pouco tempo de aprendizado.
um nmero que eu achava difcil  bea. Eu fazia uma bolinha em cima da outra e ele j sabia fazer direitinho, com preciso
cirrgica.
Que menino inteligente! eu suspirava.
E me ensinou com a maior pacincia, pegou na minha mo para me ajudar a fazer as curvas do nmero, no se importou com meus
erros infantis e no sossegou enquanto
no viu meu 8 parecer um 8. Acho que foi nesse dia que me apaixonei e decidi namorar com ele. Ele, claro, continuava no
sabendo de nada. S eu namorava com ele.
Guilherme Almeida nem tchum pra mim.
O meu namoro solitrio durou mais ou menos um ano. Numa manh, depois do recreio, suado, vermelho, cabelo desgrenhado, camiseta
suja e meio rasgada, arranho no
queixo, o charme em forma de criana, ele se aproximou de mim e disse:
Eu acho que gosto de voc, Malu.
Meu corao pequenininho que pulou para a garganta.
Eu tambm acho!
Impossvel! Eu descobri agora que acho que gosto de voc, como voc pode saber?
No, Guilherme! Eu acho que eu gosto de voc tambm minto. Se havia uma coisa de que eu tinha certeza absoluta, era de que
o Guilherme Almeida era o homem da
minha vida, meu prncipe encantado.
Srio, desde quando? quis saber, cabreiro.
Ah. desde. desde ontem menti de novo, aprendendo na prtica, aos sete anos de idade, a jogar o xadrez da conquista.
Quer namorar? perguntou ele, na lata.
Como seria bom se os meninos mais velhos fossem assim, to diretos!
Quero respondi, com a felicidade estampada em meu sorrisinho banguela.
Ento me mostra.
-ou. Mostra o qu, cara-plida? eu tive vontade de perguntar. Guilherme Almeida, daquela idade, era um menino que j
pensava em indecncias? imaginei, com o
p atrs que toda mulher deve ter em comeos de relacionamento, mesmo com sete anos de existncia.
O que voc quer que eu mostre?
Seu p.
O qu?
Anda, deixa eu ver seu p, Malu.
Aquilo me pegou de surpresa. Guilherme Almeida tinha um brilho ansioso no olhar, uma curiosidade que beirava a esquisitice.
Eu sempre odiei meu p. Magro, cheio de veias, quase chato, dedos compridos, calos por todos os lados.
Pra qu?
Porque eu quero ver, u. Mostra? pediu, como se precisasse do meu p para viver.
Por qu?
Porque eu gosto de p.
Puxa vida. Eu estava ferrada. Ele era um menino que gostava de ps, mas eu odiava meus ps. Morria de vergonha deles!
O meu p no tem nada de mais.
Mas eu quero ver mesmo assim. Tira o tnis.
Putz! Pra tirar o tnis vou ter que tirar a meia e Guilherme Almeida vai sentir meu chul. Chul de p suado depois do recreio!
gelei. Meu quase namoro estava por
um fio. Droga! E eu era to apaixonada por ele. No queria que acabasse daquele jeito.
No tive outra alternativa. Tirei o tnis, depois a meia, dei uma abanada no p para tentar disfarar o chul e mostrei pra ele.
 horrvel, eu sei. entristeci-me, j antevendo o primeiro p na bunda que levaria na vida.
Ele olhou, olhou, olhou. Abriu um sorrisinho lindo e disse:
 nada horrvel.  lindo elogiou, visivelmente encantado.
Feliz da vida, descobri que Guilherme Almeida estava realmente apaixonado por mim. E entendi o significado da frase a paixo 
cega.
Namoramos alguns meses, sem um beijinho sequer, apenas olhares apaixonados e mozinhas dadas no recreio.
Guilherme Almeida, o primeiro amor da minha vida, gostou sinceramente de mim. Mas amor de verdade, mesmo, o meu p.

8 anos.
Um pato no meio do caminho.
Meu segundo namorado foi o filho de uma vizinha, o Mateus. Toda vez que minha me ia para a casa dela falar da vida alheia, eu
ia junto pra brincar com ele.
Era aquele namoro bobo, sabe? A gente dava um selinho muito do sem graa e molhadinho demais pro meu gosto e ficava por isso
mesmo.
Eles moravam na cobertura, que tinha um terrao com muitas plantas, um campo de futebol, gato, cachorro e uma vista bem bacana.
Um dia, ele me fez ir at o terrao
para ver seu novo bichinho de estimao. Estava esperando mais um cachorrinho, um hamster (aquele rato metido a besta que todo
mundo ama, mas eu odeio), um miquinho
que tambm me d nervoso, ou algo do gnero. Eis que, para a minha surpresa, sai de um curralzinho Marcelino. Marcelino no
era um bicho qualquer. Marcelino era
um pato. Um pato!
- Pato, no! Marcelino  marreco, Malu,  diferente! - Mateus fez o favor de explicar.
Sempre fui avessa a bichos de penas. Galos, pintos, pombos, paves, andorinhas, beija-flores... nunca gostei nem de chegar
perto. De repente, eu vejo um pato na
minha frente. Pato, aquele bicho idiota e sem iniciativa que no faz outra coisa a no ser q-q,  fanho, tem bico achatado,
o p horrendo (p de pato, p!),
o andar esquisito de quem queria ser pingim e uma cara mal-humorada que me d frio na espinha.
- Vem c, Malu! Ele  filhote!
- No, eu t bem aqui! - disse, colada aos degraus que separavam a escada do curralzinho.
- Vem, Malu, deixa de ser boba! No vai me dizer que tem medo de marreco!
- Claro que no!  que pato fede! E eu odeio bicho fedorento. S isso.
- A, que fresca! Meu marreco no fede, no, t?  limpinho.
- T sentindo o cheiro dele daqui.
- Malu, voc tem que trabalhar melhor essa sua relao com o mundo animal... A gente  animal, sabia?
- Animal racional, d! E eu no sou uma pessoa ligada a bichos, isso no tem nada de mais.
- Eu se fosse voc perderia esse medo. Bichos so legais.
- Eu gosto de bichos. S no amo bichos...
- Ento por que fugiu do filhote do cocker spaniel da dona Zaz do segundo andar? Ela ficou magoada...
- Cachorro esquisito, veio pra cima de mim querendo me lamber! Nem me conhecia e j veio cheio de intimidade! E se ele me desse
uma mordida?
- Ele  nenm, Malu!
- Mas tem boca e dentes! Podia me morder. Eu gosto de bichos na floresta, nos filmes...
- T bom, deixa de ser medrosa, vai. Eu t aqui, o Marcelino no vai fazer nada, voc no confia em mim?
- Arr... - disse, zero confiante.
- Ento desce. Vem aqui fazer carinho nele.
Lutando contra todos os meus temores, desci a escada e, quando vi, estava no mesmo cho que o pato fedorento.
- D um beijinho no Marcelino.
- Fala srio, Mateus! T maluco?
O pato idiota comeou a ficar agitado. A fazer q-qs esquisitos, a bater as asas, parecia querer levantar vo.
Assustada, comentei:
- O  que  isso? O que deu nesse bicho?
- Iihhhh... Agora que reparei... voc t de vermelho.
- E o que  que tem?
- Bicho de pena no pode ver vermelho que...
- Que o qu, Mateus?
Mateus no teve tempo de responder. O idiota do pato saiu correndo atrs de mim como se fosse um touro. Corri em crculos pelo
campo de futebol com um pato imbecil
atrs de mim fazendo q-q em looping, louco para me bicar e me matar sufocada com seu fedor e suas penas horrorosas e sujas.
Chorava como se estivesse no meio do pior dos pesadelos.
- Corre atrs dela, Marcelino. Pega ela! - gritou Danilo, irmo mais velho do Mateus, para o pato assassino.
- Pra, gente! Me tira daqui, Mateus! - berrei para ningum, j que Mateus rolava de rir ao lado do irmo.
- Marreco no pode ver gente de vermelho que acha que tem que perseguir! - explicou Mateus, rindo como se estivesse vendo uma
comdia pastelo.
- E por que voc no me disse isso antes, seu demente?
Ouvindo a gritaria, nossas mes apareceram na janela.
- O que foi, filha?
- Esse bicho idiota quer me matar, me! Eu vou morrer assassinada por um bicho de dois palmos de altura! Que fim terrvelll!
expliquei quase sem flego e aos prantos,
enquanto corria em velocidade de maratonista.
- Pega o pato, Mateus! - ordenou a me dos meninos.
-  marreco, me!
Cena grotesca: Mateus e Danilo correndo atrs do pato que corria atrs de mim.
Depois de algumas voltas, eu suando de tanto correr e temer uma tragdia, o pato foi pego e a paz voltou a reinar. Com o flego
retomado e o choro suspenso, perguntei
a me do Mateus, injuriada:
- Tia Cidinha, por que voc deu um pato pros meninos? Que presente louco  esse?
Depois descobri pela minha me, que soube pela Cidinha, que Mateus no queria mais namorar comigo e, sabendo do meu medo de
bichos de pena, achou que um pato seria
um timo motivo para eu me separar dele. Podia ter dito que no queria mais, teria sido muito mais fcil. At porque eu j no
estava mais a fim de ficar com ele.
Alm de ele ter muitos bichos para o meu gosto, ele tinha, crueldade das crueldades, passarinhos coloridos numa gaiola.
deprimente!
Depois dessa experincia com o pato psicopata (praticamente um psicopato), passei a odiar o Mateus. E patos.
Odiar no  bem a palavra. Eu tenho medo de patos. Eu sei, essa frase soa ridcula, mas fazer o qu?
Pato pra mim, s o Pato Donald. E olhe l.
12 anos.
Beijo de lngua.
- Quer bala?
U-hu!, urrei por dentro. O primo da Alice est dando muuuuito mole!, comemorei internamente.
O cara tinha acabado de fazer 15 anos, morava em Friburgo e estava aqui no Rio de passagem.
ou seja, perfeito para um primeiro beijo.
Toda vez que a gente se encontrava rolava aquele clima purpurina. Clima diferente. Clima bom  bea.
A Alice achava que o clima era s na minha cabea e que eu continuaria BV (Boca Virgem) se dependesse do Nando.
- Ele no est a fim de voc, Malu! Meu primo  bobo, nem pensa em namorar.
- Eu no quero namorar! Quero beijar!
A despeito da descrena da Alice, eu tinha certeza: estava vivendo meus ltimos momentos de virgindade bucal. Dentro de pouco
tempo, eu entraria pra o time dos que
beijam. Eu, a mocinha da novela das oito, Madonna, Ronaldinho...
Samos da bombonire do cinema rumo  sala de projeo. O filme escolhido por ele: O massacre das serras assassinas.
-  para eu ficar com medo e agarr-lo no cinema, assustada.
- No  nada disso, Malu!  porque ele  um dbil mental que s pensa em sangue, crimes violentos e terror.
- T com frio, Nando? - perguntei, fofa. - Eu no estou, se quiser meu casaco te empresto.
- T a fim no, Manu. Valeu.
Manu! O cara me chamou de Manu! A purpurina tinha visivelmente ficado em carnavais passados.
- Malu, Nando. Ma-lu! - corrigi, indignada.
- Claro, desculpa, Malu.  que tenho uma amiga em Resendo que se chama Manu. Ela  amiga da Ritinha, da Gabi...
- T nem a pra essas meninas, nunca vi essas meninas. Eu sou Malu! Malu!
- Voc... Voc tem medo de filme de terror?
- Tenho! Tenho! Tenho! - foi o que consegui responder.
Virei-me na hora para Alice e comemorei baixinho a volta da purpurina.
- Caraca, ele est completamente apaixonado por mim! Voc viu? Veio com papinho de querer me proteger do medo...
- Ele s te perguntou se voc gosta de filme de terror.
- Se eu tenho medo de filme de terror! Para qu? Para eu ficar com medinho e ele me dar o ombro para me acolher dos horrores do
filme.
- Viajou!
A Alice me irritava nessas horas.
Fiz questo de ignor-la.
Sinistro! Meu poder de seduo  muuuito bom! Conquistei o garoto com meu charme e com a minha beleza interior em pouqussimos
segundos. Eu sou tima!, pensei.
Na sala 12 do multiplex, sentamos lado a lado. Assim que apagaram as luzes, a Alice, a Joana e a Duca zarparam com o Homero e o
Neco para umas filas na frente. Suuuper discretinhos.
A rolou aquele clima estranho. Aquele clima olha-no-olha, beija-no-beija, conversa-no-conversa.
O corao bateu numa velocidade que eu nem achei que ele poderia atingir. Parecia querer sair do meu corpo.
- Tem pipoca a ainda?
Essa pergunta era claramente um suuuuuper primeiro passo. Que fofo o Nando! Afinal, dividir pipoca  sinal de carinho, amizade,
de companheirismo, de energia boa.
Definitivamente ele est muito a fim de me beijar, vibrei por dentro.
Como pensamos bobagens quando temos 12 anos...
Tinha pipoca. Ele comeu pipoca, eu comi pipoca, a gente encheu a cara de pipoca. Nunca comi tanta pipoca. No cinema, eu jurava
que o som do nosso mastigar era mais
alto que o das serras assassinas em ao.
Acabou a pipoca.
E comeou aquela desconfortvel sensao de milho no dente.
- Posso dar um gole na sua Coca?
Uau! Isso sim  um primeiro passo decente!, surtei. Afinal, beber no mesmo canudo  praticamente um beijo de lngua, surtei
mais ainda.
Ele deu um gole e eu dei um logo depois. Eu era charme puro.
E a cada minuto que passava ficava com mais vontade de jogar mais charme, s para dar um beijo na boca daquele friburguense.
friburguense meio devagar, vamos combinar!
Meio no, totalmente devagar! Eu dando aquele mole descarado e ele nada! Depois aprendi que muitos meninos so devagar,
independente da idade. Eles so simplesmente
muito lerdos na arte de conquista.
Com medo de que Nando no tomasse atitude que eu esperava dele, resolvi meu futuro naquele instante.
- Nando... a gente j dividiu um canudo, comeu pipoca do mesmo saco... O que voc quer esperar mais para me dar um beijo?
! Eu falei isso! Eu virei Malu, a Cara-de-Pau! A que parte-pra-cima-mesmo-e-que-se-dane-o-que-outros-pensem.
E olha que eu nem era a fim do cara! Estava mesmo a fim de saber o gosto de um beijo e nada melhor do que com um garoto que eu
conhecia desde pequena e que era um
feinho (sempre gostei de garotos feios) bem charmosinho.
- Voc quer que eu te... que eu te... que eu te d...
- Um beijo, quero, mas eu posso dar um em voc tambm.
Disse isso e, smack!, tasquei um beijo nele.
Eu estava impossvel! E decididssima!
Caraca!
Beijei.
Beijei. beijei, beijei.
Na boa, achei muito, muito melado. Uma baba s. Muito estranho. A lngua dele rodava que nem uma manivela, parecia querer
brigar com a minha!
Achei o beijo com gosto de tampa de caneta. Tampa de caneta ao molho de esmalte incolor.
, no foi legal o nosso primeiro beijo. Foi bem desencaixado.
Mas pela cara do Nando ele tinha gostado bastante da beijao.
- Malu, menina! Voc, hein? E pensar que eu nunca pensei em te beijar, nunca te olhei como uma garota.
Leso!, pensei. E as nossas conversas na lanchonete, na fila, nossa diviso de pipoca e carinho, nosso beijo no canudo?, eu tive
vontade de perguntar, muito injuriada.
Mas no perguntei. Se ele era um menino que demorava a entender a intensidade de um clima purpurina como o nosso, problema dele.
 Eu, pelo menos, no era mais BV,
nem BVL (Boca Virgem de Lngua), muito menos BVBL (Boca Virgem de Beijo Longo).
Meu pensamentos foram surpreendidos pelo segundo beijo daquela tarde promissora. O Nando me beijou! E agora eu j estava no meu
segundo beijo. Segundo! U-hu! E este
no tinha gosto de tampa de caneta. S de fita crepe. Tinha melhorado.
Beijamos mais uma, mais duas, mais cinco, mais nove vezes...
Nossa, foi muito beijo. Beijei muito! E cada vez melhor.
Ficamos um tanto babadinhos, mas super valeu a pena.
- A gente... a gente... a gente t...
- Namorando? - perguntei.
- .
- Fala srio, Nando! Claro que no! A gente s ficou. Mesmo porque eu moro aqui, voc l longe, quase nunca a gente ia se ver...
 melhor assim. A gente continua amigo
e se der vontade a gente fica quando se encontrar.
- Srio, Malu? Caraca, voc  demais! Concordo com tudo!
E assim eu decretei, madurssima, que no ia namorar.
Depois de fofocar com as meninas na casa da Alice e contar detalhinhos do episdio primeiro beijo, fui para casa flutuando.
se aquele sucesso Tribalista j existisse
na poca, com certeza eu ia cantarolar: "J sei namorar, j sei beijar de lngua, agora s me resta sonhar"...
Assim que cheguei, resolvi me abrir com a minha me. Ela quase surtou, embora tenha tentado fazer uma cara de que achou tudo
muito normal. Por isso no contei nem
a metade da histria para ela.
Uma semana depois, a Alice me contou que o palhao do Nando chegou a Friburgo contando para todo mundo que passou o rodo geral
no Rio, que as cariocas so muito
fceis.
Garotos... humpf!

13 Anos.
Mame e meus namorados.
- Me esse  o Paulinho.
- Paulinho? - reagiu, com uma fisionomia que beirava o nojo.
- , me, Paulinho.
- Paulinho de qu?
- S Paulim, tia.
- PAULIM? Paulim t fora de questo, Paulo. E tia tambm. Dona Angela Cristina, por favor.
- Desculpa.
-  Paulo puro?
-  Paulo Silva.
- Meu Deus do cu, Maria de Lourdes, o nome do menino  esse? Paulo Silva? Paulo Silva e ponto? Ai, tadinho! - exclamou,
sinceramente com pena dele. - No podia
ser Paulo Emlio, Paulo Ernesto, Paulo Afonso ou Paulo Srgio? Adooooooooro Paulo Srgio.
- Me!.
- Eu gosto de nome duplo, Maria de Lourdes, voc sabe disso. Passa seriedade, nobreza, comprometimento com a verdade e com o
trabalho. Passa felicidade.
- Eu no gosto de nome duplo no, dona. T feliz com o meu.
- Ah, isso  porque voc  bobo. Garoto  bobo, no tem jeito.
- Eu no sou bobo. Estou bobo  com a beleza da sua filha, a Malu.
Ela quase teve um ataque. Fechou os olhos, meditou por alguns segundos, tremelicou os lbios como se tivesse ouvido a maior
ofensa do mundo.
- Eu no conheo nenhuma Malu, Paulo Silva. A minha filha se chama Maria de Lourdes.
Caraca, a minha me sabia ser antiptica quando no ia com a cara de um garoto - o que acontecia dez entre dez vezes que eu
apresentava um pra ela.
- Me, eu t saindo com o Paulinho.. quer dizer, com o Paulo, h uma semana.
- Uma semana? Espero que no tenha acontecido nenhum tipo de salincia entre vocs dois.
- Que isso, dona ngela? Eu sou muito respeitador.
- Tem quantos anos?
- Quinze.
- Quinze? Um homem praticamente, no , Maria de Lourdes? No podia ter 13, que  a sua idade?
- Me! J, j fao 14. E o Paulinho tem uma cabea tima!
- De onde vocs se conhecem?
- Ele  da minha sala.
-  re..  re ..  repetente?
- Arr... - respondi.
- Mas o garoto ainda por cima  burro, Maria de Lourdes?
- Manh!
-  virgem?
- Qu?! - Paulinho ficou roxo, roxo, roxo.
- Escuta bem uma coisa, Paulo Silva: Maria de Lourdes  virgem. Super virgem. E eu no acho nada bacana a minha filha perder a
virgindade com um garoto de nome simples,
repetente, que sai com ela h uma semana. Ok? Entendido?
- , me! Voc t assustando o menino! - Estrilei - Ela t brincando, Paulinho.
- Dona ngela, antes de a gente se pegar a gente j era amigo, ento no precisa se preocupar, eu gosto mesmo da Malu.
de verdade.
Ela respirou fundo. Pareceu usar sua ttica de contar at 36 quando ficava tremendamente irritada.
- Paulo Silva Repetente, quer dizer que voc.. voc.. voc e a minha filha.. esto se pegando? Que palavreado  esse?
quis saber, absolutamente indignada.
- Me, todo mundo pega todo mundo hoje em dia!
- Eu no sou me de todo mundo. Eu sou sua me! E ningum pega filha minha! As pessoas namoram filha minha!
- Pegar  modo de dizer.. A gente ficou.. - tentou corrigir, suando frio.
- Fala srio, amor! - Soltei, desesperadamente, antevendo a reao materna.
- Ah, ento vocs esto 'ficando'? Quer dizer que nem namoro ?
- No  isso, me...
- Quais as suas reais intenes com a minha filha, Paulo Silva?
- Eu gosto dela. Gosto muito.
- Gosta? Gostar eu tambm gosto. O pai dela gosta, os irmos gostam, o jornaleiro gosta, at o aougueiro gosta dela.
voc tem que Amar a Maria de Lourdes. Am-la
acima de todas as coisas, respeit-la, faz-la feliz, ensinar a ela matemtica. Voc  bom em matemtica?
- timo.
- Enfim uma coisa boa em voc, Paulo Silva.
- Eu tambm jogo xadrez muito bem, modstia  parte. Estou ensinando pra Malu.
- Ah, Paulo Silva  repetente, mas tem um lado inteligente. Pelo menos isso. Olha, mo no peito neeeeeeem pensar! Na bunda, s
se for de passagem, e por cima da
cala jeans.
- Beleza! - Empolgou-se Paulinho.
-  brincadeira, Paulo Silva! Eu estava te testando, Paulo Silva, pra ver se voc  o que eu estava pensando: um malandrinho
aproveitador de meninas indefesas!
- Eu no sou nada disso! - defendeu-se Paulo Silva.
- Menino no presta,  impressionante. Mo s no cabelo e no rosto, e olhe l! Maria de Lourdes  uma criana!
- T certo.. Desculpa..
- E seus pais? Eles sabem do namoro?
- Sabem. A minha me, dona Augusta, que  a diretora da escola, adora a Mal.. a Maria de Lourdes.
Nesse momento, minha me, ngela Cristina, mudou da gua para o vinho e abriu seu melhor sorriso, j imaginando o desconto que
teria na mensalidade da escola, certamente.
- Dona Augusta  sua me? Dona Augusta, diretora do colgio,  a sua me?
- , sim senhora.
- E deixou voc repetir de ano?
- Deixou sim, senhora.
- Que Profissional exemplar! Paulo Silva, porque voc no me disse isso antes? Adoro dona Augusta! Ela  uma querida! T super
 aprovado esse namoro, viu?
- Oba! - Comemorei.
- Agora vou ter mais intimidade com a sua me e vou poder lev-la ao salo para conhecer a Clia, a melhor cabeleireira do mundo
. Sua me precisa mudar urgentemente
aquele corte de cabelo da dcada de 80, parece que ela saiu de Os embalos de sbado  noite.
- Manh! - Bufei
- Eu tambm acho, mas nunca falei isso pra ela porque sou menino, e mulheres no do muita bola pra nossa opinio,n?
- Muito bem. T gostando de Paulo Silva, Maria de Lourdes! - afirmou, dando tapinhas no ombro dele.  - Quando eu for ao salo
com sua me vou fazer muitos elogios
a voc, viu?
-  o mesmo salo da minha depiladora, Malu?
-  o qu? Repete isso, filhinho.
- Eu me depilo no mesmo salo da..
- Pra o mundo que eu quero descer!!!! - Deu escndalo minha me. - Voc se depila? Voc se depila? Por qu, Santo Cristo?
pra qu? Depilar  coisa de mulher,
no de homem, Paulo Silva! Voc  macho, Paulo Silva!.. Diz pra mim.. Voc tem tendncias homossexuais,  isso? Pode dizer, eu
no sou preconceituosa!
- No, dona ngela.  que eu nado. Quero ser nadador profissional e  melhor depilar os plos, aumenta a velocidade da gente na
gua.
- Atleta.. Veja voc.. Paulo Silva  atleta. Ou seja, pobre. Voc gosta de um pobre, n, Maria de Lourdes?
mas tudo bem. o rapaz parece de boa famlia. T liberado o namoro.
Mas existe uma coisa chamada lmina de barbear. Pra de depilar e passa a se raspar.  mais masculino e no di.
- Mas coa.
- Deixa coar Paulo Silva! Que  que tem uma coceirinha aqui, outra ali?
Quando ele foi embora, minha me voltou, cheia de si :
- Essa juventude tem muito a aprender comigo, sabe, Maria de Lourdes? Voc tinha que se orgulhar de ter uma me maravilhosa
como eu. Aposto que o Paulo Silva saiu um menino melhor daqui de casa, depois da nossa conversa.
No resisti, o momento urrava por um:
- Fala srio, me!
Papai e meus namorados.
Sempre foi mais fcil apresentar meus namorados, ficantes e trelels para o meu pai. Ele  bem menos implicante e bem mais
simptico com eles do que a minha me.
O problema  que s vezes meu pai  simptico demais, sorridente demais, amiguinho demais. E eu no suporto esse negcio de pai
virar amiguinho de namorado/ficante/trelel.
Eu estava com o Lo havia duas semanas, a gente estava naquela fase de paixo profunda, amorzinho total, beijinhos carinhosos
sem ter fim e horas a fio ao telefone.
Era chegada a hora de apresent-lo para meu pai.
- Pai, esse aqui  o Lo.
- Lo de Leonardo ou de Leopoldo?
- De Lenidas, mas graas a Deus todo mundo me chama s de Lo.
- Mas, Lo, Lenidas foi um grande craque do nosso futebol. Passou pelo Botafogo, pelo Vasco, pelo Flamengo, jogou na seleo
na dcada de 40, ele era chamado de
Diamante Negro do futebol, voc tinha que se orgulhar desse nome!
- Eu achei que o senhor era Fluminense, tio.
- Senhor t no cu. E tio  horrvel, Lo. Eu no tenho idade pra ser tio, pode me chamar de primo - fez gracinha.
Comecei a ficar com medo. Ele continuou:
- Eu sou tricolor, mas entendo de futebol modstia  parte. Sou jornalista esportivo, trabalho com isso h anos. Infelizmente o
Lenidas nunca passou pelo Flu, mas
foi, sem dvida, um dos maiores dolos do futebol.
- Meu nome  Lenidas por causa desse cara a, mesmo. Eu odeio esse nome.
- No diga bobagem!  uma honra ter o nome de um dolo. Pior  o meu: Que  que c t armando, Armando? - gracejou e caiu na
gargalhada. Sozinho.
Vendo que no estava agradando, partiu para o golpe baixo.
- A Malu j te contou dos campeonatos de pum que a gente fazia l em casa? Ela sempre ganhava! O pum dela  um pum de categoria,
 desde pequena!
- Pai! - protestei, os olhos arregalados.
- Que  que tem, Malu? Se voc veio me apresentar o cara  porque o negcio  srio. E se  srio um pumzinho vai acabar
escapulindo mais cedo ou mais tarde.
Agora o Lo ria com gosto. E meu pai, feliz por finalmente arrancar um sorriso do menino, continuou seu repertrio flatulento:
- Que cara feia  essa, Malu? Todo mundo solta pum, minha filha!
- Paaaaaaaaai! - gritei, roxa de vergonha.
Lo ria mais ainda, parecia amigo de infncia do meu pai.
- O que mais ela fazia quando era pequena?
- Ah!Ela adorava pintar a cara de vermelho e sair correndo pelada pela casa dizendo que era o Cacique Manda-chuva.
ela peladinha pulando com o rosto pintado de vermelho
era a coisa mais linda do pai.
- Cacique Manda-chuva?! R, essa  boa!Tem foto?
- Claro! Te mando por e-mail.
- T maluco, pai? Manda nada!
- Manda-chuuuuuuva! Era esse o nome do seu Cacique! , menina desmemoriada!
E os dois riram juntos como se fossem velhos amigos. Qu qu qu, pra c, qu qu qu qu, pra l.
- Mais podres, primo! Mais podres da Malu!
- Esse peito aqui no existe, c sabe, n?  tudo enchimento! - avisou, enquanto apertava meu suti de enchimento.
por isso nem se empolga pra chegar perto dessa ria.
No tem nada pra ver aqui. Confio em voc, hein, moleque? Respeito com a minha mina! - Completou, dando soquinhos amigos
no Lo, que retribuiu com os mesmos
soquinhos amigos.
Odeio soquinhos amigos.
- Caraca, pai!' Minha 'mina' ningum merece!
-  carinho, filhota. Eu me preocupo com a minha porquinha frufru!
- Porquinha frufru? R r r!!!
- Era assim que eu chamava a Malu quando ela era pequena, sabe Lo?
- Mas por que porquinha? Ela tinha cara de porquinha?
- Que nada! Ela nunca foi chegada num banho, n, filha? At hoje  assim.
- Nunca mais apresento ningum pra voc, pai! - reagi, fora do srio!
- Ih, ! Vai se preparando, a Malu  brava!
- No sou NADA brava!
- Porquinha frufru  brava, ? - quis saber o debochado do Lo.
- , sim, vai se acostumando! Teve um dia em que ela mordeu a minha perna na praia porque eu no tava dando ateno pra ela.
- Mordeu?
- Eu tinha 4 anos, isso voc no conta, n?
- E a leitura da Malu? S l bobagem: revistas de fofocas, revistas de adolescente, gibi e livrinhos bobinhos.
mas no banheiro s entra Cara, n, Malu?
como diz a me dela, essa menina senta na privada e esquece da vida, n, filha?
- Fala srio, pai!
- E o gosto musical? J sabe, n?
- No! Conta, primo!
-  pssimo! Ela chora quando v essas bandinhas de menininhos rebolando na tev, guarda pster de artista; se faz de moderna,
mas  cafona toda vida!
- Quem diria, hein, Malu? - perguntou Lo, roxo de tanto rir.
- No  nada disso, no guardo nada de ningum h sculos! Que viagem, pai!
- Mas guardou daqueles mexicanos que vieram pro Brasil. Ou eram colombianos? At pra porta do hotel voc quis ir!
eu que no deixei.
- Voc gostava daqueles mexicanos? Ecaaaaaaa! Fala srio, Malu!
- E pior: ela s  botafoguense porque acha a estrela bonitinha.  muito perua, n no?
Eu quase voei na jugular do meu pai. S no fiz isso porque ele e Lo se adoravam. Foi amor  primeira vista.
O problema foi aturar o Lo me chamando de porquinha frufru pra cima e pra baixo e espalhando meu infame apelido de infncia
para todos nossos amigos.
Homens... No importa a idade que tenham, so sempre umas crianas.
Presente para o amor.
Eu estava com o Tadeu havia dois meses e cinco dias, mas a gente se conhecia h um tempo, ele morava na minha rua, brincvamos
juntos no play quando ramos crianas,
fazamos guerra de pipoca, amos ao cinema s pra fazer barulho e atrapalhar a sesso.. Enfim, ramos amigos antes de tudo.
Chegou o dia dos namorados. Adoro dia dos namorados. Ganhar presente s por estar namorando  tudo de bom. O que o comrcio no
inventa pra faturar? Estava ansiosa
pra encontrar o Tadeu. Tinha comprado pra ele um presente que eu tinha certeza de que ele ia amar, uma bola, uma chuteira e a
camisa do Ronaldinho Gacho no Barcelona,
que era o sonho de consumo dele. No era um presente, eram trs presentes, presentaos! Eu estava to orgulhosa de mim! Gastei
toda a minha mesada e ainda tive que
pedir adiantamento da prxima para meus pais, para poder caprichar, mas no me arrependi, sabia que iria agradar em cheio ao
tadeu.
- T passando a pra gente sair.
- T descendo.
Botei tudo numa caixa estampada com coraes que custou os olhos da cara, tasquei um laarote branco e escrevi um carto.
nosso amor est s no comeo, mas  lindo,
 fofo,  bem fofinho mesmo.Vamos ficar juntos muitos e muitos anos, meu amor, minha vida, minha beleza, meu torpor.
torpor peguei emprestado do meu pai, para rimar com amor.
Nem sabia bem o que era torpor, mas achei a palavra um espetculo.
Estava ansiosa na portaria esperando por ele e o vi se aproximar.
Estava de mos abanando.
Quase tive uma sncope nervosa em plena portaria, mas resisti.
Fui ao encontro dele.
Dei um selinho.
Mostrei a caixa, como se mostrasse um tesouro.
-  pra voc. - Sorri, orgulhosa.
- Pra mim? Caraca, Malu! No precisava!
- Claro que precisava..
- Mas a gente s t junto h dois meses..
Tin! Um martelo imaginrio, porm pesado, martelou a minha cabea. Quase tirei o laarote do presente para enforcar o Tadeu,
em virtude da frase odiosa, mas me
controlei.
Insensvel, palhao, idiota!, tive vontade de gritar antes de dizer: - Mas voc merece os melhores presentes.S por me fazer
to feliz..
- Ah.. T.. Beleza..
- Abre!
- Agora?
- Agora!
Ele abriu. Seus olhinhos faiscaram de tanta felicidade. Foi um festival de uaus e caracas que me deixou extremamente empolgada
e certa de que seria, de longe, a
vencedora do prmio de melhor namorada do mundo, se ele existisse.
Ainda embasbacado com a trinca de presentes perfeitssimos, ele revelou:
- O seu presente eu.. eu esqueci l em casa. Achei que a gente ia se ver mais tarde tambm.
Ufa! Ele tinha comprado, s tinha esquecido.
- No tem problema, vamos at l buscar.
- Agora?
- , u. aqui do lado.
- Ah, ?
- , Tadeu! Voc mora no prdio ao lado do meu desde que tem trs anos.
- T.
Chegamos  casa dele.
- Oi, tia Sueli - cumprimentei a me do Tadeu.
- Oi Malu. Ganhou presente, , filhote?
- Ganhei. Trs presentes irados.
- Por qu?
- Porque hoje  dia dos namorados, tia.
- Ih,  mesmo, tinha at esquecido.
- Me, a Rafa t ai?
- No, sua irm saiu com o Bodo.
- Ah, t. Malu quer gua, refri, alguma coisa? - perguntou, fofo.
- No, t bem assim. Quero s meu presente mesmo, t curiosa.
- Ah, t. Ah, t. Arr. Me, d um pulinho aqui?
- No, filho, vou ficar fazendo sala pra ela.
- Ela  de casa, pode ficar sozinha um pouco.
- De jeito nenhum, que desfei..
- Vem me! Por favor!! - insistiu.
- Com licena, Malu.
Os dois entraram e ficaram l dentro por longos minutos. Deu tempo de ligar pra Alice e pra Duca, deu tempo de ler o horscopo
no jornal que a tia Sueli estava lendo
e ainda fui dar uma vasculhada na geladeira, porque depois de tanto tempo fiquei com sede.
Eles reapareceram.
- Tchan.. - Fez Tadeu, com um saco marrom de supermercado, meio amassado, e uma fita de cetim um tanto amarrotada fazendo um
laarote, grampeada no saco.
- Pra mim? - perguntei, sem esconder a decepo.
- Pra voc.
- T calor aqui, n? Vou l dentro tomar uma chuveirada fria - avisou tia Sueli, antes de sumir corredor adentro.
- O pacote fui eu que improvisei, a loja estava sem embalagem pra presente. No vai abrir?
- Vou, claro.. - Respondi, sem a menos vontade de abrir aquele pacote pobrinho.
Abri. E qual no foi a minha surpresa quando vi o presente.
- Uma meia? Noooossaaa.. ? Uma meia..
- Toda colorida, voc no gosta de meias coloridas?
- Gosto, acho que gosto.. Nunca parei pra prestar ateno nas minhas meias.
Tentei disfarar a minha cara de desnimo. Afinal, a situao no estava boa pra ningum, ele podia estar sem grana..
pelo menos ele no tinha esquecido de mim.
Comprou uma meia colorida.
Observando mais atentamente, constatei o que no queria constatar.
- Uma meia cheia de patinhos, olha s..
- No  linda?
- Eu odeio pato, Tadeu.
- Como assim?
- Eu tenho medo de pato.
- Fala srio, Malu!
- T falando. Se eu pudesse fazer um pedido para o gnio da lmpada eu pediria que ele acabasse com os patos.
o ideal de paraso, para mim,  um mundo sem patos, tadeu.
Silncio constrangedor.
- Acho que voc no me conhece muito bem.. - desabafei, as lgrimas comeando a escorrer.
Enquanto enxugava as lgrimas com a horrorosa meia de pato, senti um cheirinho diferente.
no era cheiro de pato, no era cheiro de novo.
- Essa meia t com xul, Tadeu!
- No  possvel!  novinha!
- No  novinha, Tadeu! Pode dizer, voc pegou no quarto da sua irm. Voc esqueceu que hoje era dia dos namorados..
Ele ficou sem graa.
- No, Malu, demorei horas na loja escolhendo..
- Pra de mentir, odeio mentira!
- Desculpa, Malu, desculpa! Eu no achei que a gente ia trocar presente de dia dos namorados!
voc nem me falou que tinha comprado!
- Eu achei que voc ia comprar tambm!
- Mas a gente t junto h dois meses s.
- Que  que tem? Voc acha que existe um tempo mnimo para as pessoas se darem presentes no dia dos namorados?
- Seis meses - ele respondeu, sincero.
- Beleza, Tadeu.Vou pra casa - despedi-me, pensando na minha querida mesadinha, que tinha ido embora com um monte de presentes
idiotas.
Fiquei bem triste.
Enquanto chorava no meu quarto, tive de agentar a minha me berrando do lado de fora:
- Gastou dinheiro  toa! Homem  tudo igual, Maria de Lourdes! Voc precisa entender que homem no presta, filha! No presta!
eles so pssimos de data! No decoram
nenhuma!  da raa, minha filha!
Chorei todas as lgrimas que existiam dentro de mim. Quando estava pensando em parar de chorar, bateram na porta.
- No quero ver ningum, me.
- Sou eu, Malu.
Era o Tadeu.
E eu estava horrorosa, com a cara de sapo, toda inchada.
- Ah.. Entra.
Ele entrou. E trazia um buqu lindo de flores numa mo e uma caixinha na outra.
- Sei que nada vai apagar o que eu te fiz, mas essas flores e esse presente so do fundo do meu corao. E eles so mais que um
pedido de desculpa.
so  para voc entender que gosto de verdade de voc. Mas sou um garoto, e garotos so desligados..
Olhei pra ele meio chorosa ainda, desconfiada, mas com um sorrisinho nascente na boca.
- V se gosta.
Era um par de brincos.Lindo.
- Pra voc sair hoje comigo mais bonita ainda. Posso botar?
Botou, me abraou e me deu um beijo apaixonado.
- Eu te amo, Malu. No s porque voc  minha namorada, mas porque  minha melhor amiga.
Derreti.
Samos para tomar um suco no comeo da noite, olhamos nos olhos, rimos bobos um para o outro.
E eu entendi que datas so apenas datas. E que todo dia deve ser dia dos namorados. Dia 12 de junho, humpf!  s mais uma data
para o comrcio ganhar dinheiro. O
o que importa  o amor. E o amor no pode ser medido em cifras. Descobri isso naquele dia, o mesmo dia em que percebi que amava
e era amada. Amada de verdade.
amor que no tinha sido comprado em nenhuma loja. Vinha do corao do Tadeu. Quer presente melhor que esse?

14 anos

 cada um que me aparece...

A surreal histria abaixo aconteceu de verdade. Eu estava num show na Praa da Apoteose, no meio da galera, com os braos pra ci
ma, os olhos fechados, cantando junto
e viajando na msica quando se aproxima de mim um indivduo louro-Marylin e diz, srio:
- Oi.
Retribuo educadamente.
- Oi.
Volto a olhar para o palco.
- Eu surfo.
Olho pra ele com uma interrogao na testa esperando a frase seguinte, que foi...
- Eu sur-fo.
- Arr...
Viro a cabea novamente para a direo do palco, pensando em como tem maluco no mundo.
- Voc surfa? - ele insistiu.
- Voc surfa, eu no surfo - respondi.
Apontando um louro platinado ao lado, estufou o peito e preparou-se para fazer o que parecia uma grande revelao:
- Meu brother ali surfa. Eu surfo, ele surfa.
Ns surfamos, vs surfais, eles surfam, eu quase emendei.
Mas resisti.
- Legal pra vocs.
- Meu pai tambm surfa.
- Huum...
- Eu surfo na Prainha. E voc?
- Eu no surfo! - irritei-me.
- Por qu?!
- Porque eu tenho medo de mar!
- Eu te ensino a surfar... - disse ele, sedutor.
E s ento saquei o porqu da ridcula aproximao.
- Obrigada, mas prefiro ficar na beirinha.
- Fala srio, gata! P, a, caidao ficar na beirinha...
Ele foi embora, surfar em outras ondas, e eu fiquei parada, chocada, tentando entender de onde saem esses seres esquisitos que d
e vez enquanto se aproximam de mim
querendo invadir minha praia.

Ajuda aqui!!!

Eu sempre fui metida a esteticista/cabeleireira/profissional da beleza e, por conta disso, me meti em vrias roubadas com o intu
ito de ficar bonita (e tambm de
economizar um dinheirinho). J pintei o cabelo aos 12 anos e quase fiquei sem um olho depois que a tinta entrou em contato com a
 minha retina, j usei um autobronzeador
que me deixou laranja e outras tragdias que no vm ao caso trazer a tona. Infelizmente, demorei a aprender a lio.
Um dia resolvi experimentar uma cera recomendada pela amiga de uma amiga, de fcil preparo, para fazer minha depilao em casa.
Era s misturar os ingredientes que
vinham na caixinha, botar no microondas e, pimba!, adeus depiladora-que-acaba-com-a-minha-mesada.
Resolvi depilar o buo (bigode, para os no iniciados), axilas e pernas. Comearia, claro, pelo rosto, a menor parte a ser depil
ada. Comprei o produto numa farmcia
meio obscura, numa rua mais obscura ainda na Tijuca. Na caixa, os dizeres: "Livre-se do salo. A soluo para os seus plos nas
suas prprias mos!!!!". Assim mesmo,
com vrias exclamaes. " fcil,  rpido,  indolor. E  cheiroso!!!!", estava escrito no manual, com mais exclamaes. Sinal
de que seus fabricantes eram pessoas
realmente orgulhosas de seu invento. Nada mais alegre e animado do que ponto de exclamao, sempre amei ponto de exclamao!
S desconfiei do fato de ser indolor, nada mais sacrificante e cruel do que arrancar os plos pela raiz. Afinal, aquela cera no
 podia ser mgica. Mas o cheirinho...
Nossa! Que cheirinho bom! Mel misturado com jasmim e ervas variadas, uma coisa linda, uma colmia num potinho, um jardim em form
a de cera.
Tirei o potinho do microondas com o cuidado necessrio, peguei a esptula e ela derreteu assim que entrou em contato com a cera.
 Esptula vagabunda, pensei. Veio
com defeito, conclu. Resolvi, ento, meter o dedo mesmo. Era com as mos que eu ia fazer tudo, no podia ter nenhum mal nisso.
Tinha.
A cera estava quente e molenga quando eu meti o dedo. Alm de sentir ferver cada clula do meu indicador, assim que tirei a mo
do pote, a cera foi caindo gradativamente
na minha roupa nova (nova!), at o momento em que minha mo encostou no meu bigode. Quando comecei a espalhar a cera, alm de se
ntir o meu buo em chamas, no pude
deixar de notar que o produto escorreu pela boca e para o queixo. E pingou na roupa mais uma vez. Com a boca aberta e uma certa
baba pingando pelos lados, eca!,
meti a mo de novo no pote e o caminho da mo at o buo foi to desastroso quanto da primeira vez.

Briguinha de namorado

- Oi, Betoooo!!!
- Oi, pinxeja!
- No fala com voz de nenm comigo, "pinxeja"  ridculo.
- T bem, vem c me dar um beijo, vem... ra-i-nha - chamou, dengoso.
- Rainha  pssimo, Beto. Me chama de Malu, mesmo ?
Eu estava na TPM, vale dizer.
- Agora olha pra mim - pedi, com meu rosto bem grudado no dele, meu nariz quase entrando no dele.
- T linda.
- O que  que t linda ?
- Voc t linda, Malu.
- Por qu ?
- Porque voc  linda todo dia...
- , que fofo, mas no  por isso - respondi, seca.
- Claro que ... - insistiu, romntico.
- Claro que no! - reagi, pau da vida. - Repara, Luiz Alberto! Repara de verdade! Larga essa revista idiota de surfe e olha pra
mim! - exaltei-me.
Eu sei, estava bem chatinha, mas nada justificava a insensibilidade do meu namorado.
- O que voc quer que eu repare? J sei! Cortou o cabelo!
- No, Luiz Alberto! No acredito que voc disse isso! No acredito que voc ACHA isso! Eu estou deixando o cabelo crescer j me
ses! Fala srio, amor! Olha direito!
- pedi com veemncia, arregalando os olhos.
Ele ficou mudo.
- Jura que voc no nota nada de diferente em mim? - choquei-me.
- Voc... voc t linda!
- E isso  diferente onde, posso saber? Eu sou feia nos outros dias, por acaso? A resposta no era essa, Luiz Alberto!
- Caraca, achei que "voc t linda" fosse a frase preferida das meninas...
- No , Luiz Alberto! No agora, Luiz Alberto! Agora eu gostaria que voc prestasse mais ateno em mim, Luiz Alberto!
- Pra de me chamar de Luiz Alberto!
-  que voc t me irritando!
- E voc t me assustando!
- Por qu?
- Porque voc t brava, esquisita, chata e mandona. No gosto dessa Malu a, essa Malu que quer puxar briga! Quero minha Malu de
 volta.
- Eu no quero puxar briga! Eu s quero te mostrar uma coisa! No  possvel que voc no consiga ver esta obra-prima! - indigne
i-me apontando com as mos o meu
rosto.
- Eu no estou entendendo nada. Primeiro, eu digo que voc t linda e voc diz que no t. Agora, voc se gaba dizendo que  uma
 obra-prima. Malu, na boa, o que
voc quer que eu diga?
- O que voc t vendo!
- Eu t vendo voc!
Um minuto de silncio se fez necessrio. Eu estava muito, muito irritada.
- Voc no tem corao, sabe, Luiz Alberto? E tambm no tem o menor senso de esttica - choraminguei, para logo depois desabafa
r: - Eu fiz a sobrancelha, t? Com
a deusa das sobrancelhas, a Kelly Slater das sobrancelhas, para falar a sua lngua! A mulher mandou muito bem! Levantou o meu ol
har, harmonizou meu rosto e me deixou
muito mais bonita! Sobrancelha  tudo e a minha estava pssima, torta, despenteada e rebelde!
- Eu gosto de voc com sobrancelha rebelde, sobrancelha caretinha...
- Sobrancelha perfeita agora - corrigi, jogando charme e me aninhando nos braos fortes do fofo do Beto, deixando a irritao de
 lado.
At porque logo depois desse episdio descobri que no foi s o Beto que no notou a minha sobrancelha. A Alice no notou. A min
ha me no notou, o meu porteiro
ignorou, o jornaleiro nem comentou e minha av no viu nenhuma diferena, mesmo olhando com a lupa.
Ningum repara na nossa sobrancelha. S a gente.
Tanto sofrimento  toa com aquela pina idiota.
Mundo cruel.

Cupido

No tem jeito: num grupo de amigas, tem sempre uma que se acha cupido, que tem certeza de que conhece a pessoa certa pra voc, s
ua alma gmea, o cara perfeito. Eu
era assim. O meu maior sonho era ver minhas amigas namorando os amigos dos meus namorados.
Perdi essa mania depois do episdio que contarei a seguir.
Era uma tarde de sbado, depois da praia fomos almojantar num restaurante natural e apresentar a Alice, minha melhor amiga desde
 sempre, ao Marcelinho, melhor amigo
do Luciano, com quem eu estava saindo h poucas semanas.
- J pensou que mximo, Alice, se voc namorasse o Marcelinho? Eu e voc namorando dois melhores amigos? Que sonho!
- Ai, Malu. No gosto quando voc vem cheia de idia pra cima de mim... Voc  pssima cupida!
- Por qu? Eu j apresentei voc pra um monte de caras bacanas. Diz um, um que voc no tenha gostado!
- O Lo da caspa, o Silva pssimo aprendiz de violinista, o Jurandir, que me trocava por um jogo idiota de peteca, o Maneco, pio
r poeta do mundo, o Fabiano nojentinho,
o...
- Ai, t bom, t bom! Tinha esquecido. Mas o Marcelinho  diferente.
- Como  que voc sabe? Nem conhece o cara!
- Mas conheo o Lu que  sincero, amorzinho, nunca ia meter uma amiga minha em roubada. Se ele diz que o Marcelinho  nota mil,
pode acreditar.
- Sei no... - disse Alice, cabreira.
- Deixa de ser boba! Eu estou super animada! J pensou a gente namorar dois amigos? Que sonho!
- Isso . - Os olhinhos de Alice brilharam.
- Vamos fazer tudo juntos. Vamos ser os casais mais invejados do mundo.
- Ele  saradinho? - quis saber Alice.
- O Lu disse que ele no sai da academia. Olha eles a! Oi, amor!
O garoto ao lado do Lu era a encarnao da feira, uma trombada de foguete com cometa, a traduo da palavra medonho: estrbico,
 culos fundo de garrafa, pernas
tortas, camiseta suada debaixo das axilas, cafona (do tipo que usa bon para o lado - para o lado!!! -, bermuda esportiva, sapat
o fino e meia branca), espinhas para
dar e vender, um queixo maior que Marte, nariz de panela (o jeito que eu me refiro a pessoas com narizes que parecem ter levado
uma panelada) e aparelho mvel nos
dentes tortos.
Alice quase teve um treco. Eu quase tive um treco.
O Lu tinha dito que o Marcelinho era pintoso! Aquele no podia ser o Marcelinho... Eu queria matar o Lu! Quis desencalhar o amig
o horrendo dele com a minha amiga
to bonitinha... tadinha...
- Carlos Evandro. Alice. Alice. Carlos Evandro.
- Carlos Evandro? - fez Alice, surpresa.
- Carlos Evandro? Cad o Marcelinho? - quis saber, irritada, puxando o Lu pra perto de mim.
- Esquece o Marcelinho - Sussurrou Lu. - Marcelinho comeou a namorar srio ontem, o ltimo disponvel era o Carlos Evandro.
- Como  que ? - indignou-se Alice.
- Fica quieta e aproveita, o cara  o mximo. Vai por mim.
Alice arregalou os olhos e armou uma tromba.
Eles fingiram no ver e sentaram-se  mesa.
- Carlinhos  campeo de xadrez. N, no, Carlinhos?
- Eu fao o que posso, Lu... - gabou-se, dando uma cusparada no cedilha do "fao" e nos dois esses do "posso".
Foi quando descobrimos que Carlos Evandro, alm de tudo, era fanho.
- P, cara, tira o aparelho pra falar! - brigou Lu.
Pensa que Carlos Evandro foi para o banheiro? Nananinano! Presenciamos a belssima cena: ele metendo a mo na boca, desencaixan
do o aparelho todo babado e fazendo
a mais improvvel das perguntas:
- Posso botar aqui em cima da mesa? Esqueci a caixinha... Diante das nossas caras boquiabertas, emendou:
- Eu enrolo no guardanapo, pronto. Eu sempre esqueo a caixinha...
Ainda perplexas e com muito, muito nojo, notamos que ele tinha a lngua presa. Nos esses, sua lngua enorme saa da boca com ou
sem aparelho.
- O Carlos Evandro tem o cabelo lindo, super brilhoso, tira o bon e mostra para a Alice, Carlos Evandro - pediu meu namorado.
Nessa hora me lembrei que Lu j tinha comentado sobre esse amigo comigo. Contou que ele tinha a auto-estima no p, era super ins
eguro, sentia-se rejeitado... Fiquei
com peninha e resolvi ajudar, mesmo sabendo que a Alice ia me matar.
- A Alice adora garoto de cabelo bonito, n, Alice?
Ela me fuzilou com os olhos. Era uma vez uma amiga, pensei. Carlos Evandro tirou o bon. E no  que seu cabelo era realmente bo
nito? A nica coisa bonita naquela
pessoa.
- A! Isso  que  cabelo, n no? - empolgou-se Lu. - Agora cheira, Alice! D uma fungada no cabelo dele e me diz se algum di
a voc cheirou um cabelo to cheiroso!
Diante da inrcia de Alice, intervim:
- Cheira, Alice!
Ela me fuzilou de novo.
- Cheira, pode cheirar - pediu Carlos Evandro, com sua inacreditvel voz fanha.
Muito a contragosto, Alice se aproximou para cheirar as madeixas do menino.
- Que tal? No  um absurdo de cheiroso? - quis saber Lu, aproveitando para dar uma cheiradinha tambm. - Vem c, Malu, sente is
so.
Fui, senti. Era cheiroso mesmo.
- Fala alguma coisa, Alice! - estrilei.
- Parabns, Carlos Evandro... - foi o mximo que Alice conseguiu dizer.
- E no  s brilhoso, no, n?  sedoso. Passa a mo, Alice - pediu Lu.
- No precisa, t sentindo daqui a maciez...
- Carlinhos sempre teve o cabelo lindo, n, Carlinhos? Sem contar com os plos do sovaco. Conta para a Alice o que voc faz com
 o sovaco.
- Eu no quero saber... - murmurou Alice.
- Quer sim! Conta, Carlinhos! - incentivou Lu.
- Ah, pra! Assim vou ficar encabulado, cara...
- Conta! - pedi, curiosa de verdade para saber o que um garoto podia fazer com os plos do sovaco.
- Eu passo hidratante. Duas vezes por dia. Fica maciiiiooo...
- Olha que coisa linda, Alice. Presta ateno, Alic! Voc conhece algum que hidrata, e diz que hidrata, os plos do sovaco?
E  sovaco cheiroso, Alice.
- No faz isso, Luciano, no me pede para chei...
- Acho muito bacana esse cuidado do Carlos Evandro com o corpo - mudei de assunto, para Alice no precisar dar uma fungada em so
vaco alheio.
- Bacana, no.  lindo, Malu, lindo! - empolgou-se Lu, dando a impresso de que ELE queria ficar com o Carlos Evandro. - E o car
a t malhando, indo  academia todo
dia... mostra o bceps para a Alice.
- T vendo daqui, Carlos Evandro  super forte - disse Alice, a desanimao em forma de gente.
- E os dentes? Ri pra ela, Carlos Evandro!
- Que  isso, Lu? - berrei para tentar salvar Carlos Evandro do constrangimento.
Mas o menino no queria ser salvo.
- Tchan! - fez ele, sorriso de comercial de pasta de dente no rosto.
E assim, Carlos Evandro virou uma esttua de sorriso escancarado. Ele estava achando que tinha chance com a Alice. Tadinho dele.
 Tadinha dela!!!
- Fala a, Alice! Duvido que voc tenha visto dentes mais brancos que esses! So meio tortinhos, mas o aparelho  pra isso. O qu
e impressiona  a brancura, n no?
- Impressionante messssmo... - respondeu Alice, acho que j com peninha do menino. - Alm de malhar e sorrir, voc faz o qu?
- Eu leio. Machado, Graciliano, Jos de Alencar...
Sabendo que Alice no era muito de ler, Lu deu um cutuco nada discreto nele.
- Mas o Carlos Evandro tambm v televiso. Diz pra ela a que voc assiste.
- Discovery Channel, National Geogr...
- No, Carlinhos! O que a gente veio conversando?
- Aaaah, t... Vejo Malhao, comdias de situao, tenho o DVD de Friends, de Sex and the City, de...
Enquanto ele enumerava suas sries "preferidas", eu me perguntava "como  que meti minha amiga numa roubada dessas?".
- Carlos Evandro  supersensvel. Te falei, n, Malu?
- Arr.
- E  difcil achar um cara sensvel hoje em dia, Alice, t pensando o qu?
- ... eu sei... - desabafou Alice, num fiapo de voz.
- Mas Carlos Evandro  um cara muito engraado tambm. Conta uma piada, Carlos Evandro.
- No pre-ci-sa - disse Alice, enftica.
- Alice gosta de danar, no , Malu?
- Adora.
- Carlinhos tambm adora danar, dana super bem, Alice. Dana pra ela, Carlinhos.
- Pra com isso, Luciano! Vai constranger o menino. A gente ta numa lanchonete! No tem msica! - exasperou-se Alice.
- P, eu no ia ficar constrangido, no, eu dano bem  bea, mesmo em msica - reagiu Carlos Evandro, j de p, pronto para dan
ar.
Tentei ajudar de novo, para tentar melhorar a situao.
- No  o Carlos Evandro que  super fofo com as namoradas?
- Super fofo e super mo-aberta! D presentes timos, caros, o pai dele  rico. D um presente pra Alice, Carlinhos.
- P, no tenho nada aqui... - fez ele, triste.
- D qualquer coisa, cara! - insistiu Lu.
- Aloou! Gente! Vamos parar com isso?! - irritou-se Alice. - Vou ao banheiro, Malu. Vem comigo?
- Agora?
- A-GO-RA! - respondeu ela, enrgica.
Fiquei com medo e fui.
- Malu, eu quero matar voc. Cad o Marcelinho?
- Arrumou namorada, no ouviu?
- E por que o Luciano trouxe esse traste? Eu prefiro ficar s do que mal acompanhada.  esse o ditado, lembra?
- , amiga... ele s t querendo ajudar, ele tambm quer que voc namore um amigo dele pra gente sair sempre junto.
- O Luciano  louco! T me deixando super constrangida na frente do garoto. E eu no t encalhada, no! Tem muita gente por a q
uerendo ficar comigo, t?
- Alice... O Carlos Evandro  feio, mas  to gente boa... No tem nenhuma chance?
- Fala srio, Malu! - reagiu Alice, brava.
Do lado de fora...
- Ser que ela t gostando de mim, Lu?
- Claro. Quem  que no gosta de voc, Carlinhos? A Alice t no papo. Quando elas voltarem eu peo para voc cantar o hino nacio
nal de trs pra frente e duvido que
ela no caia apaixonada.
- Beleza! - exclamou Carlos Evandro, sorridente, esfregando as mos.
Voltamos.
- A Alice vai embora.
- J? - perguntou Carlos Evandro, mais fanho que nunca.
- J. Olha, Carlos Evandro, voc realmente  um menino de vrios talentos, seus dentes brancos so um espetculo e os plos hidr
atados do seu sovaco, nossa!, devem
ser suuuuper macios, mas eu preciso ir, minha me est me esperando para ir ao supermercado com ela, eu j tinha prometido que i
a... Tchau para voc.
Fiquei pssima na mesa, mas os meninos no pareceram ligar muito para a decepo da Alice. Luciano, para piorar, ainda lanou a
prola:
- Mulher  um bicho complicado mesmo... Vai entender. Agora vem c, Carlinhos, c entre ns, me arruma o nome desse hidratante d
o sovaco?
O qu? Meu namorado queria hidratar os plos do sovaco? Ah, no!
- Fala srio, Lucianoooo!

Mala

O meu pai  jornalista esportivo desde que me entendo por gente e esse  o emprego perfeito pra ele. Nunca vi uma pessoa to vic
iada em esportes! Assiste a tudo
pela tev, vibrando muito, sempre: futebol (partidas da primeira, da segunda e da terceira divises), vlei, tnis, campeonatos
de xadrez, corrida de cachorro...
Com a mesma empolgao. Mas seu vcio, mesmo,  futebol. Tricolor roxo, ele nunca se conformou com minha opo pelo Botafogo e f
ez chantagem enquanto pde.
- Se voc virar Fluminense, o papai no conta pra mame que voc comeu um pacote de biscoitos antes do almoo - dizia ele quando
 eu tinha uns cinco anos.
- O tricolor  to melhor, filha, e voc  to inteligente... Se voc virar casaca, papai te d uma bicicleta - tentou quando eu
 tinha uns sete anos e meu maior
sonho era andar sobre duas rodas.
, s vezes ele jogava baixo.
Nunca deu certo. Sempre fui perdidamente apaixonada pela estrela solitria do alvinegro, pelo preto e branco da bandeira, pelo a
mor da torcida pelo time... Mas pra
por a a minha paixo futebolstica. No sei os nomes dos jogadores, nunca entendi o que  impedimento e no aprendi a diferena
 entre atacante e volante. P, pra
mim volante  aquele treco que tem no carro, e s. Pra falar a verdade, gosto mesmo  de jogo da seleo brasileira. Com pipoca
e conversa. Acho 90 minutos muuuuita
coisa pra um jogo to montono e sem gente bonita em campo. Ah, se o Beckham jogasse aqui...
De reprter esportivo meu pai foi promovido a editor-chefe da revista em que trabalhava havia anos. E se deu uma tarefa: cobrir
a final do campeonato argentino em
Buenos Aires, com direito a perfil dos principais jogadores do Boca Juniors e do River Plate.
Na verdade, queria sair do Brasil para espairecer um pouco e se deu trs dias de trabalho na capital argentina. O melhor da hist
ria: ele me chamou!
- Vamos fazer o tango tour, que dura umas cinco horas, conhecer a histria do tango, danar tango  noite e pagar muito mico hab
lando portunhol em Buenos Aires,
pedindo Cueca-Cuela e gua-de-cueco, tudo com sotaque carregado! R r r! Vai ser divertidssimo! E vamos assistir a todos os j
ogos de futebol! A torcida de l
 super empolgada, parece final de Copa do Mundo, voc vai amar! U-huu!
U-uuuiii!
Tango? E eu l queria danar tango? Odeio tango! E portunhol? E Cueca-Cuela? Que mico! Queria mesmo conhecer a noite argentina,
os gatinhos (ou seria "gatitos"?)
argentinos, a carne argentina. E achei que estaria livre do futebol argentino, j que no sou muito chegada nem no brasileiro...
Mas achei bacana ele me convidar e matei um dia de aula para pegar bons ares em Buenos Aires. (Ai, que pssima essa frase! Mas 1
1:10 resisti, foi mais forte que
eu.)
Antes de ir, tive de avisar ao meu gatinho carioca do momento, o Leandro, que iria passar uns dias com meu pai fora do Brasil.
- Que irado, Malu! Vai ser tudo de bom viajar com seu pai! Posso te fazer um pedido?
- Pode fazer vrios - respondi, apaixonada e burra.
- Vrios? - ele perguntou, feliz, feliz.
- V-ri-os - Fui burra de novo.
- Voc pode trazer umas coisas pra mim?
- Claro, meu amor. O que voc quiser - cometi uma sandice, como adorava dizer minha me.
- Srio? - empolgou-se como nunca.
- S-srio... - disse, temerosa.
- Beleza! Posso pedir, ento?
- Manda!
- Eu amo alfajor. Sou louco por aquele doce. Ser que d pra trazer uns seis pra mim? Eu te dou o dinheiro.
Ufa!, respirei aliviada. Achei que ele ia pedir um elefante de porcelana super pesado e super frgil ou algo que o valha. Alfajo
r, imagina! Nem ia fazer peso na
minha mala.
- Claro, meu amor!
- Tambm gosto de doce de leite.
- Ah, eu tambm amo!
- Ento. Tem uma marca argentina que  simplesmente perfeita.
E tem no free shop de l, tranqilo de achar.
- T...
- Pode trazer 12 vidros?
- Doze? - engasguei.
-  que no estraga... eu te dou o dinheiro...
- No  por isso...  que esses vidros costumam ser pesados...
Ele me ignorou completamente.
- Se der pra trazer tambm um dicionrio de espanhol/portugus eu vou amar. Estou aprendendo, c sabe, n? Mas , no quero aque
les pequenos no, esses tm aqui.
Quero um grande, completo, cheio de exemplos. Tenho o endereo de uma livraria com preos timos. Fica a uns 50 minutos de Bueno
s Aires,  pertinho de txi...
- Arr... - respondi, meio atnita com a idia de trazer um dicionrio, sinnimo de trambolho, na minha malinha de trs dias.
- Beleza, Malu! P, a, brigadao. Esse dicionrio aqui  caro e l vai ser menos da metade do preo.
Desligou.
Nossa, eu no poderia levar quase nada depois de tantos pedidos.
Para tudo isso caber na mala, duas roupas para os trs dias e olhe l!
Um minuto depois, toca o telefone. Ele de novo.
- Malu, d pra trazer tambm um livro de mesa com fotos em preto e branco da Argentina no sculo XIX? Tem numa livraria na Recol
etta, minha me que pediu.
Livro de mesa? Aquela coisa pesadssima, de capa durssima, enorme e lotaaaada de pginas? Como  que eu ia dizer no pra sogra?
 No disse.
- Claro... - respondi, amedrontada.
- Maravilha. Meu pai tambm quer uma coisa. Pediu um vinho que s d pra encontrar l. Depois te passo o nome por e-mail. Vinho.
 Vinho! Alm dos 12 vidros de doce
de leite, 6 alfajores, um livro gigante e um dicionrio-trambolho, mais uma coisa. E uma coisa quebrvel com lquido vermelho de
ntro! Vermelho! E vinho mancha! A
minha mala, a essa altura, teria apenas uma roupa para os trs dias. Como  que eu ia dizer no para o pai do Leandro?
Devia, porque quando ele foi para a Frana trouxe pra mim um leno muito do vagaba com os dizeres "J'aime Paris", que eu, obviam
ente, nunca usei, e uma camiseta
de camel que ficou pequena em mim e depois de lavar ainda encolheu.
- Trago, claro.
- Show! Ele falou que quatro garrafas t beleza, mas se der pra trazer mais vou te agradecer pro resto da vida. Meu pai  louco
por esse vinho.
- No sei se quatro eu consigo traz...
- Traz trs, ento, trs no tem o menor problema, Maluzinha.
Alis, uma podia ser presente, n? O cara te adora.
Presente? Que cara-de-pau!
Estava em pnico. A minha mala seria a mais pesada do avio.
No ia conseguir fazer nada em Buenos Aires, a no ser comprar as encomendas do sem noo do Leandro.
- Ah! Falei com a minha av e ela pediu um negcio chamado chimichurri.  um molho meio apimentado que s tem l. Voc pode traz
er dois vidros? Um verde e outro
vermelho. O vermelho  com pimenta vermelha. Tem em qualquer supermercado.
Supermercado? Eu teria que entrar num supermercado, que eu odeio, para comprar dois potes de nome esquisito para a av do Leandr
o? Fala srio!
Pelo menos s pediu dois.
- P-POSSO...
- U-hu! Ela j avisou que faz um almoo especial pra voc na sua volta, com o tal do molho. Uma delcia a minha av, n?
- Nossa, delcia... - respondi, achando a av dele tudo, menos delcia. - Ela s quer isso e um cortador eltrico de salame. Dis
se que  timo. Voc encontra numa
delicatessen num shopping no centro da cidade, e l  tudo pertinho, dizem.
- Cortador de salame? Deve ser enorme isso!
- Caramba, Malu!  pra minha av, a nica alegria que ela tem na vida  comer e cozinhar...
- Eu sei, mas...
- Nunca achei que voc fosse se recusar a atender ao pedido de uma velhinha de quase 80 anos.
- Sua av  super inteira! Mais inteira que eu, cheia de plstica! E tem 72 anos!
- Ento, daqui a oito ela faz 80! J, j! Que surpresa, Malu. No imaginei que voc era to imprestvel!
- Imprestvel? Voc me pediu Buenos Aires inteira e eu no reclamei de nada! Alis,  muita cara-de-pau sair pedindo um monte de
 coisas sabendo que vou ficar to
poucos dias e que meu pai vai a trabalho!
- Caraca,  assim que a gente conhece as pessoas, sabe?
Fiquei irritadssima com o comentrio. Ele era sem noo, folgado e grosso, mas tinha os clios to grandes e o nariz to perfei
to... Sem contar que a Betina, a
garota mais insuportvel do colgio, era a fim dele. E eu amava matar de inveja a Betina, que eu chamava entre as minhas amigas
de Betina Metidina.
- T bom, desculpa... eu compro o cortador de salame...
- Te amo, Malu!
Quase derreti.
- A minha irm pediu uns cremes que s tm no free shop aqui do Brasil, no vo pesar na mala, voc compra na volta. Trs t bom
. Aqui custa cem reais, no free shop
vinte, um absurdo, n? D pra rolar?
Melhor dizer sim do que ouvir outro ataque mal-humorado.
- D - aceitei, serssima.
No dia seguinte ele foi l em casa se despedir de mim.
Chegou carregado com duas sacolas. Achei que eram presentes pra mim, j que traria coisas para toda a sua famlia.
No eram presentes. Eram enormes embalagens de... fraldas.
-  fralda de cachorro. No tem isso na Argentina, acredita? Um amigo de infncia do meu pai soube que voc tava indo e pediu pr
a voc levar quatro pacotes pro cachorrinho
dele. E olha que eu nem sabia que cachorro precisava de fralda. Voc pode dividir com o seu pai. Dois pacotes na dele, dois na s
ua, porque so meio pesados. E no
precisa levar na casa dele, no! Ele pega no hotel!
- Nossa, que fofo! - debochei. - Era s o que faltava eu ter que levar fralda de cachorro na casa de um cara que eu nem conheo.
- Com certeza, Malu! Seria muita folga, n? - disse ele, enquanto tirava os enormes pacotes das sacolas. - Cada um deve ter umas
 80 fraldas.
- Oitenta? Fala srio, Leandro! Pode ir embora, pra mim est tudo acabado.
Dias depois, conversando com um amigo que tnhamos em comum, Leandro lhe confidenciou:
- No entendi at agora por que a Malu terminou comigo... Menina maluca! Acho que ela tava a fim de me dispensar pra pegar um ar
gentino...

15 anos

Tudo errado

Era a primeira vez que eu almoava com a famlia do Fred. Ele j tinha passado pelo crivo do meu pai, da minha me e at da minh
a querida avozinha, que entupiu o
coitado de comida quando eu o levei para jantar na casa dela. Agora era minha vez de conhecer os pais do fofo com quem eu estava
 saindo havia uns trs meses.
Ao contrrio de muitas amigas minhas, sempre adorei o momento de conhecer os pais dos meus namorados. Sou tima com eles. Cativa
nte, carismtica, articulada, divertida,
inteligente, irnica... E modesta, claro. Enfim, sou tudo o que os pais procuram em uma namorada de filho. Pais e mes sempre me
 amam. Sempre!
Quero dizer... Quase sempre.
A minha primeira vez com os pais do Fred no foi, assim, to legal. No sei o que aconteceu, acho que estava gostando muito dele
 e acabei ficando nervosa.. Ah sei
l!
Sei que toquei a campainha pontualmente s 12h30 e fui recepcionada pela sorridente e simptica dona Atenas, a me do Fred.
- Nossa voc  mais linda do que o Fred falou.
"Oba, comeamos bem!", vibrei por dentro."Eu sou incrvel at de boca calada, impressionante. Imagina quando eu comear a fazer
minhas observaes inteligentes.
A  que ela vai babar por mim".
- Linda? Aaah, so seus olhos, dona Atena... - fui fofa.
Nesse momento com a minha auto-estima l em cima, batendo no teto, entrou o irmo mais novo de Fred. Abri meu melhor sorriso par
a o pirralho, que tinha oito anos,
quando ele veio me perguntar.
- O que voc acha de uma criana ter um colelho, mesmo morando num apartamento?
Nossa, a bola perfeita para eu cortar!, pensei. Ele deve estar enchendo o saco dos pais para ter um coelho e eles certamente est
o detestando a idia.  a minha
chance de conquistar a famlia inteira para todo o sempre.
- Acho pssimo, coelho  um bicho idiota. No interage, no reage e faz o nmero dois mais fedidos do mundo animal, o apartament
o vai ficar uma fedentina! Sem contar
com os plos que ele vai soltar pela casa inteira, um horror para limpar. Bicho  bom na floresta, n no, dona Atenas? - Conclu
, sorriso no rosto.
Aps interminveis segundos de silncio, dona Atenas se manifestou, sria:
- Ns acabamos de dar um coelho para o Fernando.
Caraca! Como  que eu fui dar um furo desses? Como  que se conserta um furo desses?
- Ah, o bom  que coelho no vive muito tempo, a fedentina vai acabar rapidinho - disse o que no deveria ser dito.
- Bu!! Meu colelho vai morrer! Morrer! - Berrou Fernando, antes de sair correndo para o quarto, provavelmente para se agarrar
 ao tal coelho.
O pai do Fred interveio para quebrar o gelo:
- Oi, muito prazer eu sou o pai do Fred.Voc quer gua, guaran, suco, vodca ...
- H ?
- Brincadeirinha ...  pra voc ficar menos nervosa - confessou, antes de se aproximar para sussurrar no meu ouvido: - Tambm ac
ho coelho um bicho idiota, mas a
Atenas faz tudo para esse menino. Uma vez ele pediu um caiaque pra remar na banheira e ela pensou em se mudar para uma casa com
piscina, acredita?
- Caramba! E para ter um caiaque ? Logo caiaque. Eu acho remo um esporte to idiota...
- Eu fui treinador da equipe de remo de Vasco da gama na dcada de 70, tenho muito orgulho disso - revidou na lata.
Fiquei muda.
Pasma.
No era possvel!
- Brincadeira, bobaaa! - ele caiu na gargalhada.
E eu cai nessa pegadinha ridcula. Tudo que eu queria era fazer um "d-!" enorme pra ele, mas fiquei sria como uma mmia.
No precisava de mais nada para chegar a concluso de que o pai do Fred, assim como os coelhos e o remo, era meio idiota. Idiota
 tipo que faz piadinhas sem gracinha.
Sentamos a mesa.
Dona Atenas avisou?
- Olha, Malu, como o Fred disse que voc  boa de garfo, que come de tudo, resolvi fazer a minha especialidade pra voc. Tem gen
te que acha extico, mas eu acho
muito gostoso.
Glup!
Fiquei com medo e olhei para o Fred, que baixou os olhos.
Nunca fui muito chegada a comidas elaboradas. Gosto mesmo  de feijo, arroz, bife e batata frita.. O prato mais extico que com
i na minha vida foi batata saute,
que nada mais  do que uma batata frita cheia de si.
Ela continuou:
- Fiz lngua, espero que voc goste.
Tive nsia de vomito.
Lngua?
Quem  que come lngua? Existe um prato chamado lngua?
Quem  que faz lngua para uma pessoa na primeira vez que a v?
Lngua de booi? Eu sei l aonde  que o boi colocou a lngua! Eeecaaaatiiii!!!
- T timo, dona Atenas. Adoooro lngua. - Menti.
Na primeira garfada vi que no seria capaz de manter a mentira.
- Desculpe a indelicadeza, mas no d pra comer isso. Onde  o banheiro? - Perguntei, a mo tapando a boca e j correndo para lo
nge da sala de jantar.
Enquanto lavava as mos, resolvi dar uma inspecionada bsica no armrio. Ah! Que  que tem? Todo mundo xereta o banheiro dos out
ros, no  nenhum crime fazer isso!
O problema  que aquele no era o meu dia e o que era improvvel de acontecer aconteceu.
De repente, do nada, um vasinho de porcelana se jogou de dentro do armrio.Tenho certeza de que no esbarrei nele, ele  que qui
s se suicidar. Juro! Resultado: O
barulho de vasinho quebrando no cho logo tomou conta do apartamento.
- T tudo bem ? - gritou Fred, do outro lado da porta.
- Tudo, mas quebrei sem querer um vasinho que ... estava em cima da pia ...
- Que vasinho em cima da pia? - perguntou o pai de Fred.
- No tem vasinho em cima da pia! - Completou a me do Fred, com voz brava.
- O nico vasinho que tem no banheiro  o vasinho que a me da minha v deu pra minha me - gritou o irmo do Fred.
Droga! Era um vasinho do tipo relquia!
- E s fica no armrio porque dona Atenas tem medo que eu quebre - concluiu a empregada, dona Efignia.
Fala serio! Era uma relquia do tipo querida. Querida e intocvel.
Quase meti minha cabea na privada e dei descarga. Todo o mundo sabe naquela casa que eu tinha xeretado o armrio, quebrado uma
relquia de famlia, falado mal de
coelhinhos indefesos e de caiaques e ficado com nojo da comida deles. Nojo!
Que lstima!
Sa pssima do banheiro, as mos no rosto escondendo a vermelhido da vergonha.
- Desculpa! Eu compro outro vasinho para a senhora dona Atenas!
- No vai conseguir achar. Esse vasinho  antigo e  da ndia. Mas no precisa se preocupar no, no - lamentou chorosa, mal con
seguindo esconder as lgrimas.
Ai que clima pssimo! Aquilo no podia ficar pior!
Ficou.
- Vamos voltar pra mesa, daqui a pouco seu ovinho vai chegar Malu - Comentou Fred.
- Ovinho? Fala serio amor! Ovo me d dor de barriga! - sussurrei no ouvido dele, muito injuriada.
- Jura?!
- Caraca! Voc sabe alguma coisa ao meu respeito?
Terminei a tarde comendo macarro instantneo
Todos foram fofos comigo mesmo depois de tantas tragdias.
Mas eu nunca mais fui a casa do Fred. E olha que fiquei com ele mais uns cinco meses depois desse almoo.

Falando elado com o namolado

As coisas com o Fred iam de vento em polpa. Estvamos a cada dia mais apaixonados. Nosso namoro era de verdade, namoro lindo, pa
ixo arrebatadora, pra vida toda,
eu tinha certeza. E, por isso, mesmo eu precisava ter uma conversa importantssima com ele. Importante e delicada.
Sempre odiei gente que fala com voz de nenm. Acho idiota, ridculo, tenho vontade de enforcar maiores de sete anos que dizer 'v
ox', 'ningum melexe', 'namolado'
e afins. E sou assim com todo mundo: pais, irmos, amigas... Quem me conhece sabe: para me irritar  s fazer voz de nenm pra m
im.
Por muito tempo essa regra vale para todos que me cercam, menos para meus namorados. No sei por que abri essa concesso. Talvez
 porque tenha me deixado contaminar
pela bobeira da paixo, vai entender. O fato  que quando dava por mim, l estava eu falando como o Cebolinha em dilogos insupo
rtveis, ridculos e zero romnticos
com meninos da minha idade que me beijavam na boca depois de pedir um 'bezo apassonadu'.
Fala srio!
Resultado: todos os meus namoros e rolos foram por gua abaixo e eu, revirando a lista de ficantes e namorados mais srios, perc
ebi que a causa do fim podia ser
essa chata, mil vezes chata!, voz de nenm. Como eu estava gostando muito do Fred, e ele de mim, e como o dilogo infantil ainda
 no tinha invadido nossa relao,
resolvi cham-lo para uma conversa sria depois da aula.
- Eu preciso falar com voc Fred.
-Quer discutir a relao? - Questionou, com indisfarvel cara de pnico.
- Claro que no, no sou desse tipo - menti descaradamente.
- O que  ento? T com a unha grande?
- Grande e sujinha em baixo, t meio nojentinha at, mas no  isso que quero falar.
- T com pelinho saindo do nariz?
- Um pouco pode cortar, mas tambm no  isso.
-  a minha letra? Pode dizer, ela  um garrancho e voc no entende meus bilhetes apaixonados?
- Sua letra  pssima, Fred, mas eu entendo o que voc escreve. No  s sobre isso que eu quero conversar com voc! Caraca! Pos
so falar?
- Pode.
- A gente ta h um tempo junto...
- Ai, no, voc quer terminar! Malu, me d mais uma chance!
- Menino deixa de ser bobo,  justamente por que eu no quero terminar com voc que a gente precisa conversar.
- Ah, t.Que alvio!
, que bonitinho!, vibrei por dentro.
- Eu quero fazer um pacto com voc.
- Pacto? Do tipo furar o dedo e jurar fidelidade? Menina adora essas coisas, mas eu t fora, morro de medo de agulha.
- Jura? Meio fresco isso hein? Mas tudo bem, no  esse tipo de pacto que eu quero fazer. Nada a ver esse negcio de furar o ded
o pra jurar amizade eterna, amor
eterno, fidelidade terna...
- Graas a Deus! O que  ento?
- Eu quero que a gente prometa que nunca, NUNCA, mesmo que de vontade, vai falar com voz de nenm um com o outro.
- Ai Malu! Que susto! E que notcia boa! Eu acho ridculo casal que fala assim!
- Eu tambm! Eu tambm! - comemorei, alegre e saltitante, me jogando pra cima dos braos dele.
- Tem gente que fala assim em publico, quer coisa mais absurda?
- No! No existe nada mais absurdo que isso! - Dei mais um abrao nele, seguindo de muitos beijos empolgados, com certeza de qu
e finalmente tinha encontrado a outra
metade da minha laranja. Aquele namoro tinha futuro!
Duas semanas depois dessa conversa, fizemos quatro meses de namoro - eu estava bem apaixonadinha. Fred me levou para uma casa de
 sucos que eu amo para comemorarmos.
Enquanto ele devorava um aa e eu comia um sanduche de peito de peru com queijo-de-minas, olhos grudados um no outro, a paixo
 ocupando todo o espao que havia
entre ns naquela mesinha...
- Amoli di vida, plomete que nunca vai abandonar seu colelhinho losa?
Quase tive uma indigesto.
- Coelhinho losa? Fala srio, Fred! Que coisa mais gay!
- Mas  que voc gosta das...
- No  por que gosto das suas bochechas rosadas que voc vai virar meu colehinho losa de repente! Que  que  isso? Surtou? A g
ente no tinha combinado que nunca
ia falar assim?
- Mas hoje  nosso aniverslio de namolo... Achei que podia falar axim com minha plinxejinha... - Fez dengo. - Coelhinho losa, t
listinho, tlistinho.
- ,Fred, no fica assim vai ... - tentei melhorar a situao, me senti a pessoa mais vaca do mundo. s vezes eu erro na mo e a
cabo sendo grossa com as pessoas
que mais me adoram. Vaca, vacona.
- Dixculpa o namolado, Malu. No vou magi falar axim com vox, fica tlanqula - chorou.
Droga! Eu fiz o menino chorar! No precisava ter isso no meu currculo! Que pssimo!
, no seria daquela vez que meu plano de abolir essa lngua idiota da minha vida daria certo. O que a gente no faz enquanto t
 apaixonada?
- Vem c coelhinho losa, vem c com a Malu, disculpa a Malu. Malu  glossa, xem alma e xem colao.
Beijinhos e mais beijinhos selaram nosso novo dialeto.
O Tempo passou e continuamos a fala assim um com o outro, mas sempre baixinho, nunca em pblico... At que um dia, na fila do te
atro, aos cinco meses de namoro,
quanto eu via a vitrine de uma livraria, ouvi o que no queria ter ouvido jamais ...
- Xapinha! - Ele berrou (um parntese se faz necessrio para explicar o "xapinha" em questo. Xapinha foi a maneira simptica e
diminutiva que ele encontrou para
me chamar de sapa. Sa-pa. Apelido fofo, apelido lindo! Suuuuuuper romntico). - Voxe vai queler lugar na flente ou atlas do teat
lo?
O que fazer uma hora dessas?
- No meio, colelhinho losa. Xapinha quer ficar no meio do teatlo - respondi, resignada, tentando esconder meu embarao.
Fiquei com o coelhinho losa mais alguns meses. Falando elado, mas ainda completamente passonada por ele.
Um tempo depois, desisti. Fala xriu! Exa coija de falar axim, como clianxa,  lidcula. Li-d-cu-la!

Dilogo com meninos

Meninos me irritam quando o assunto  dilogo. Tudo bem, eu sei que esse negcio de discutir a relao  meio tedioso, mas no 
 a esse tipo de dilogo que estou
me referindo. Estou falando de dilogos corriqueiros, dilogos do dia-a-dia, conversas, bate-papos. O problema da maioria dos ga
rotos  que eles no so chegados
a uma conversa. No  que eles no gostem de dialogar. Eles simplesmente no sabem dialogar. Lembro o meu namorico com o Estevo
, morador do meu prdio, que era
a verso mais nova e mais bronzeada do Tom Cruise. A gente estava saindo h uma semana e nossa relao comeou a desgastar quand
o puxei uma conversa sobre papel
de bala na fila do cinema.
Tudo bem, eu sei que papel de bala  um assunto meio nada a ver, mas, p, o cara no falava nada! Eu pre-ci-sa-va conversar, tor
nar o clima agradvel. Se eu no
quebrasse a porcaria do silncio, morreria sufocada. Meninos no so assim. Eles sempre preferem o silncio. Sempre.
- Voc reparou que mudaram o papel da bala Juquinha? No acredito que fizeram isso com a bala Juquinha, logo com a bala Juquinha
, eu adoro bala Juquinha, o papel
da bala Juquinha no era assim, mesmo! Se tem uma coisa que eu conheo  a textura do papel da bala Juquinha. Eu como bala Juqui
nha desde pequenininha. Xi, at rimou.
Que fofo! Se bem que eu no gosto de diminutivo... Voc gosta?
- No sei, nunca pensei no assunto.
Grosso!, berrei por dentro.
- Bem que podiam inventar uma substncia que fizesse com que os papis de bala parassem de fazer barulho. Barulho de papel de ba
la no cinema ningum merece, n?
- .
Mal-educado! Insensvel! Monossilbico ridculo!, gritei em pensamento.
- Sabe quem veio ver esse filme? - tentei de novo puxar assunto. - A Suzana, j falei da Suzana? Uma menina do meu colgio que t
em um cachorro chamado Co,  feia,
mas se acha linda, tem muito mais dente do que devia,  meio porquinha, fofoqueira, bigoduuuda... no acredito que no te falei
da Suzana, ela  tima, super amiga
minha!
- Nunca ouvi falar dessa Suzana - disse ele, me lanando um olhar estranho, olhar de quem olha um extraterrestre.
- T calor, n?
- T muito quente. Espero que o ar-condicionado do cinema esteja funcionando direito.
Ufa! At que enfim ele disse mais de uma frase!
- E cereal? Voc come cereal de manh? Cereal com leite? Ai, eu no consigo, olho praquilo e acho que  um monte de pedaos de c
rebro de macaco flutuando em gosma.
-  to esquisito...
- Cereal? Tambm acho! - empolguei-me, feliz por finalmente ter puxado um assunto pelo qual ele se interessava.
- No, esse jeito de vocs, meninas... Vocs so muito esquisitas. Como falam, como so tagarelas. Voc  a menina mais tagarela
 que eu conheo.
- Tagarela? Eu? Fala srio, Estevo! Estava falando s para quebrar o silncio!
- Quebrar o silncio? Pra qu?! Deixa o silncio quieto, coitado! Ele no faz mal pra ningum...
- T bom, t bom... desculpa... Eu falo um pouco demais s vezes, admito. Vamos ficar quietinhos.
Menos de sete segundos se passaram quando as palavras pularam para a minha boca. Eu precisava comentar o que tinha acabado de ve
r.
- Repara o cabelo dessa mulher! Repara o cabelo dessa mulher! Aposto que  chapinha. Chapinha malfeita, ainda por cima. Deve ter
 feito em casa, de qualquer maneira.
A minha amiga Robertinha quer fazer escova progressiva no cabelo.  uma espcie de chapinha que dura trs meses.  uma fortuna.
O meu cabeleireiro Rmulo  totalmente
contra. Acha uma agresso.
- No  possvel, Malu!
-  sim, agride o couro cabeludo e ainda...
- No  isso! No  possvel que voc fale tanto!
- Ai, foi s um comentrio, que chato voc t!
- Eu? Eu t chato? Voc no parou de falar um segundo! Vocs, mulheres, falam porque tm necessidade de emitir sons. S por isso
. Para vocs  normal falar o que
se passa na cabea,  normal pensar em voz alta. Mas  humanamente impossvel acompanhar cada palavra que sai da sua boca. Que e
u me lembre, de casa at aqui voc
j falou de bala, de papel de bala, da Turma da Mnica, de castelos medievais e da qualidade das novelas do SBT. Ah! Voc disse
tambm que eu precisava passar vinagre
de ma no meu cabelo para tirar a oleosidade dele, depois emendou no novo namorado da sua amiga, Juca, que eu nunca vi na vida,
 e ficou indignada com a chapinha
carssima que uma tal de Robertinha quer fazer. Para qu, meu Deus? Quem so essas pessoas? Qual a importncia de monologar sobr
e esses assuntos? Qual  a dificuldade
de pensar em silncio? E o que  chapinha? O que a gente perderia se no falasse da chapinha progressiva da sua amiga?
- Escova progressiva - corrigi.
- Caguei!
- Caraca, Estevo, voc  pssimo, sabia?
- Engano seu. Eu sou timo. O que vocs, mulheres, nunca vo entender  que ns, homens, s falamos quando realmente temos algo
a dizer. No desperdiamos palavras,
no jogamos saliva fora.
Que cara grosso, viu? Terminei tudo ali mesmo, na fila do cinema. Mas nem fiquei triste. Poucos dias depois sa com uma amiga e
ela me apresentou ao Vinicius, com
quem conversei horas a fio. Falamos de vida, de msica, de Chico, de Caetano, de Tom Z, de Cinema Novo, de teatro, de livros, d
e cremes para cotovelos desidratados,
do novo rmel que dava um volume sensacional aos clios... Eu era a encarnao da felicidade. Tinha, enfim, encontrado um cara l
egal, o cara certo para mim. E ainda
por cima era lindo e cheio de estilo.
No dia seguinte descobri que minha quase futura relao amorosa tinha um nico empecilho: Vinicius j estava namorando. O Emlio
. Isso mesmo, Vinicius era gay. Convicto
e muito feliz.
Fiquei sozinha por um tempo depois desse episdio, mas nunca desisti de encontrar o cara dos meus sonhos: engraado, sarado, nem
 to bonito, nem to feio, mais alto
que eu, espirituoso, romntico, que no me troque por peladas com os amigos, que no goste de ver esportes pela tev, que adore
ver vitrine e que largue tudo por
uma boa conversa.  pedir demais?

 cada um que me aparece...2

Olhinhos pequenos, abdmen sarado, perna grossa, pele dourada, um Adnis em plena praia de Ipanema escolhe o espao de areia ao
meu lado para se estabelecer. Fica
em p, olha o mar, encolhe a barriga, empina o peito, d uma alongada, exibe os msculos, olha o mar de novo, olha para os dois
lados da praia... Olha pra mim.
- E a? - fez ele, levantando as sobrancelhas.
- E a? - Eu no tive alternativa.
- Beleza?
- Be... beleza...
Ele senta.
- Mora aqui perto?
- Na Tijuca.
- Eu moro em Copa.
- Ah, t.
Silncio se faz. Ele olha o mar de novo. Vira-se para mim, compenetrado, espremendo os olhinhos, e pergunta:
- Voc acredita em fada, duende, ogro, essas paradas?
Mastigo a pergunta. Mastigo mais um pouco, tentando passar a idia de que aquela  a pergunta mais normal do mundo e...
- N-no...
- Show! - comemorou. Acho que se eu acreditasse ele no seguiria conversa.
- Super-heri voc no curte tambm no, n?
- Gosto de alguns.
- De quais?
- Do Homem-Aranha, do Batman...
- Do Batman? Batman?
- , do Batman. O que  que tem de errado com o Batman? Eu gosto bem do Batman.
- Fala srio! Qual o superpoder do cara? Tem bat-caverna, batmvel, bat-acessrios, bat-tudo! As bat-coisas que fazem tudo por
ele, ele no faz nada.  um bat-boc
esse cara! E ainda  bat-boiola, na boa. Nada contra os boiolas, mas vai dizer que aquela amizade com o Robin no  meio esquisi
ta?
- Arr... - respondi, um tanto assustada. Preferi no contrariar a pessoa.
- Que superpoder voc gostaria de ter?
- O de ficar invisvel a qualquer hora - respondi, acreditando que tinha dado a entender que era exatamente isso o que eu queria
 naquele momento.
- Srio? Eu queria o superpoder de comer muito e no engordar. Eu s tenho esse corpo porque malho trs vezes por dia, todo dia.
 Corro na areia, malho na academia,
pego muito peso, sente meu bceps - pediu, pegando minha mo e encostando-a em seu brao.
- Nossa... - Foi a nica coisa que consegui verbalizar.
- Voc malha?
- No.
- Fala srio!
- T falando.
- Por qu?
- No gosto.
- Por qu? No quer ficar sarada, no?
- No fao questo.
- Que  isso? Levanta a, deixa eu ver seu corpo.
- Qu?
- Anda, levanta, se eu der uma analisada no seu material posso te dizer o que uma horinha diria de malhao pode fazer por voc
.
- No... t legal aqui, valeu. .
- Bunda mole?
- Garotooo!
- Se for tem remdio.  s comear agora.
- Deixa a minha bunda em paz! No vou mostrar nada pra voc.
- Beleza, eu vou olhar pra ela quando voc for dar um mergulho, mesmo... Depois dou a nota.
Fico muda. E emburrada. Olho para o mar.
- Vou te dar nota baixa, no... Fica tranqs... , olhando daqui, meio esparramadinha no cho, acho que pode rolar um cinco... ci
nco e meio com muito esforo. No
 nota vermelha, viu?
Fao cara de raiva.
- T com vergonha, n?
- Claro que no, cara!
- Se no quer mostrar, beleza, no vou insistir.
Ufa! Finalmente ele se tocou que estava sendo inconveniente, que estava me enchendo o saco, que eu queria ficar em silncio.
- Deixa s eu pegar na sua bunda, ento.
- Qu?!
- Rapidinho! S pra sentir a consistncia dela!
- Olha s, voc t me chateando. Se continuar vou chamar meu Irmo, que  dez vezes mais forte que voc e t na gua com os amig
os... - menti descaradamente. Eu
estava sozinha esperando minhas amigas e o Mam  pele e osso.
- J entendi. C deve estar toda molenga, barriguda, cheia de celulite... Olha a lei da gravidade... Ela  cruel com a mulherada
... Vai malhar enquanto  tempo,
menina...
Levanto em busca de outro lugar na praia. Enquanto ando e me
afasto, ainda tenho o desprazer de ouvir o Adnis gritar:
- Seis e meio! Seis e meio, garota! Melhor do que eu pensava!

16 ANOS

Anbal do blsamo ou Namorando pela net

Tenho pele clara, cabelo cor de mel muito brilhante e os olhos verdes puxados para o castanho.

Assim meu admirador secreto se descreveu.
Comeamos bem!, pensei empolgada e j quase apaixonada. Sempre quis ter admiradores secretos, e agora tinha chegado o meu. E ele
 era lindo! Um Brad Pitt verso teenager,
seguramente.
Anbal (o nome era a nica coisa que eu sabia dele) tinha pegado o meu e-mail com a irm da amiga de uma amiga minha. No comeo,
 fiquei injuriada por ver meu endereo
eletrnico andando por a. Mas a irm da amiga da minha amiga disse que Anbal insistiu tanto que sua paixo desesperada em mens
agens insistentes era to evidente
que ela ficou com pena e deu. Afinal, Anbal no era um desconhecido: era amigo do cunhado do vizinho da prima dela.

Conta mais?, escrevi, curiosssima.

Gosto de msica, de livros, de cinema, de shows, de futebol (mas no sou do tipo que passa o dia vendo jogos pela tev) e do Fla
mengo.


Flamenguista? Anbal, o Admirador Secreto, no podia ser perfeito, pensei.

Eu sou botafoguense, de corao, digitei, quase emendando com "sou do time tantas vezes campeo", mas lembrei a tempo que esse h
ino era do Fluminense, time dos meus
pais. Ainda bem, no podia pagar um mico futebolstico logo nos primeiros encontros virtuais.

Botafogo? No podia ser perfeita, brincou ele.


Fala srio! Anbal, o Admirador Secreto, tinha senso de humor! Que coisa rara hoje em dia! Que delcia ter um admirador secreto
tudo de bom!

Eu estou encantado com a sua beleza, Malu. Voc tem um cabelo lindo, cabelo de sonho, observo voc desde que me mudei para a sua
 rua.

Cabelo de sonho? ! Que lindo! Um menino que d valor s horas que passo cuidando das minhas madeixas.

Trocamos vrios e-mails, por vrios dias, e estvamos cada vez mais entrosados, mais amigos, mais relaxados um com o outro. Ele
qostava de Chico e Marisa Monte,
Pitty e Leela, Mettalica e Aerosmith, Beatles e Rolling Stones, Jack Johnson e Ben Harper, Evanescence e Black Eyed Peas, U2 e P
ink Floyd, Baro Vermelho e Legio
Urbana.
No suportava acordar cedo, adorava comer brigadeiro com colher, era paciente e no via programa melhor que passear no shopping.
 No demorei muito para perceber
que eu estava vivendo uma paixo interntica com a minha alma gmea virtual. Quem diria, eu, Malu, Maluzinha, encantada por um a
dmirador que s conhecia por e-mail.
Ai, que aventura!, vibrava por dentro.
- Esse cara pra mim  um pilantra. Onde j se viu ficar espionando voc, saber onde voc mora, onde voc estuda e nunca ter se a
proximado? S pode ser um pilantra
querendo se aproveitar da minha filhinha ingnua, que se acha adulta, mas  um beb - surtou minha me.
- Claro que no, me! Ele s  tmido - parti em defesa do meu admirador.
- Uma ova! Ele  um safado virtual. Pilantra.com.br. Conheo o tipo. Olha l, hein, Maria de Lourdes, cuidado com o que voc est
 fazendo. Esse cara pode ser um
seqestrador, Um bandido de marca maior - preocupou-se ela sinceramente.
- Ele no  nada disso! Ele  fofo... - Suspirei.
- Como  que voc pode ter tanta certeza disso?
Eu no podia ter tanta certeza disso. Eu apenas supunha que meu admirador secreto era o prncipe que eu estava esperando h temp
os.

Voc  uma deusa, te admiro tanto, tanto... Voc  a menina mais perfeita do mundo. Quero te conhecer ao vivo. Vamos marcar?

O que voc diz para um admirador secreto que te chama de deusa e de perfeita?

Claro! Onde?, teclei ansiosa.

Na casa de sucos da esquina da sua rua. Amanh s cinco. Que tal?

Fechado! Como voc vai estar vestido?

Jeans e camiseta preta.

Anbal, no vejo a hora de conhecer voc!, suspirei virtualmente.

Eu tambm! Mas preciso ser sincero... alm de olhos castanhos puxados para o verde e brilhosssimo cabelo marrom puxado para o m
el, estou um pouco acima do peso,
o que pode fazer com que voc me ache qordo. Tambm tenho orelhas de abano, nariz de tomada e mos do tipo almofadinha, mas sou
muito gente boa. Beijo, tchau e at
amanh.

Gluuuup! Por essa eu no esperava! Tanta sinceridade, assim, aos 45 do segundo tempo! Nariz de tomada? Gordo? Mos almofadinhas?
 O que  uma mo almofadinha, meu
Deus? Meu prncipe era um sapo!
O pior  que eu no podia dizer que no queria mais ir. Ele certamente tinha um problema de auto-estima, e se eu furasse poderia
 causar um dano muito maior  cabecinha
de Anbal, o Mentiroso Descarado.
Cheguei s 17h15, atrasada, pra no ter que esperar pelo Shrek tijucano sozinha na lanchonete. Ao entrar, logo avistei uma figur
a trajando jeans e camiseta preta.
E qual no foi minha surpresa quando vi que... ah!, ele no era to feio assim. Tudo bem, seus olhos eram pretos como a noite, o
 cabelo de mel no tinha nada e o
nariz parecia o de um porquinho, mas um porquinho simptico. Ele era gordinho, mas um gordinho fofo. E tinha um sorriso cativant
e, com covinhas nas bochechas gigantes.
E eu sempre gostei de covinhas.
Enquanto andava na sua direo, pensei: "Como fui cruel. O que  que tem se ele no  lindo? O que importa  o que vem de dentro
. Ele  culto, inteligente, se veste
direitinho,  romntico, me chama de deusa, gosta de mim de verdade... O que  que tem ele estar um pouquinho acima do peso?"
Mas meus pensamentos foram por gua abaixo quando cheguei perto e olhei atentamente para o cabelo de Anbal, o Mentiroso Descara
do.
Era realmente brilhosssimo. Cheguei a me ver refletida na cabeleira quase preta de Anbal, o Seboso.
No conseguia olhar para outro lugar a no ser seu cabelo espesso, que brilhava de uma maneira assustadora, era armado, parecia
uma peruca malfeita, um novelo de
l, um bombril alisado... sei l. Pra mim aquilo estava mais pra atrao de circo do que pra cabelo.
- Eu no menti, assumi que era meio gordinho - ele disse, sem noo de que seu peso nem tinha chamado a minha ateno. - E voc
 mais linda ainda de perto.
- E o seu... e o seu... E esse... O que  esse cabelo, Anbal?! - descontrolei-me.
-  brilhoso. No falei?
- No  brilhoso.  oleoso. Oleoso, no. Ele no tem cara de sujo. Ele  esquisito, brilha de uma maneira diferente. E  armado.
 Voc passou laqu? Diz que no,
por favor! - descontrolei-me de novo.
Ele se aprumou na cadeira, orgulhoso.
- Laqu? E estragar essa formosura?
Ui! Ele usou a palavra "formosura"!
- Senta a que eu te conto o segredo.
Fiquei com medo. Eu tenho medo de segredos.
- Eu moro numa casa com quintal. L, plantei umas flores que tm um lquido que cheira mal, mas que em contato com o couro cabel
udo deixam o cabelo cheio de brilho
e vivacidade. Pega, pode pegar! Sente a textura - explicou, pegando minha mo e levando-a rumo  sua cabea.
Escapei a tempo.
- No, valeu. T bem assim.
Eu estava absolutamente abobada. Aquilo estava com cara de pesadelo. Eu tinha certeza de que ia acordar a qualquer momento. Eu e
stava louca para acordar a qualquer
momento. Anbal continuou, mostrando que eu estava acordadssima, infelizmente:
- Eu tenho um plano. Como agora tenho muitas flores, posso testar o blsamo nos cabelos de mulheres, e eu acho seu cabelo perfe
ito, comprido, volumoso... Voc ia
ser a melhor garota-propaganda do mundo. Depois eu vendo a idia para uma multinacional de cosmticos e fico rico e famoso. E vo
c vem na minha aba, como a modelo
exclusiva do Blsamo do Anbal, o blsamo que embeleza. Depois  s correr para o sucesso e ir fazer pose no castelo de Caras. Q
ue tal?
B!, uma sirene tocou na minha cabea.
Anbal, o Mentiroso Descarado, ex-Admirador Secreto, agora era Anbal do Blsamo que Embeleza. O que foi que eu fiz de errado? S
ou to boazinha, respeito os mais
velhos... Mas quanto mais eu rezo, mais assombrao me aparece.
- Voc quer me usar de cobaia para esse invento maluco,  isso? Foi a nica coisa que consegui dizer.
- No, eu fui a cobaia. E meu blsamo de maluco no tem nada, t? Eu testei em mim e vi com meus prprios olhos o resultado mara
vilhoso!
- Arr. Arr. Sei... Quer dizer que... voc no  apaixonado por mim? - S ento caiu a ficha. - Est apenas interessado em faze
r experincia com meu couro cabeludo,
 isso?
- , mas eu posso me apaixonar, se voc quiser. Voc  realmente bonita. E imagina que linda voc vai ficar com os cabelos macio
s, sedosos e brilhosssimos. No
 gel, no  silicone, no  leo.  o blsamo do Anbal.  floral.  natural. E no faz mal. Blsamo do Anbal, a beleza das fl
ores no seu cabelo. Viu? J tenho
at slogan.
Naquele momento, entendi finalmente aquela frase: "de perto ningum  normal".
- Anbal, na boa, eu gosto do meu cabelo como est e, na boa de novo, seu cabelo  pssimo. Seu slogan  pssimo! Pssimo! No s
ei que blsamo  esse nem que flor
assassina de cabelos  essa, mas como sou gente boa, posso te avisar: sai dessa enquanto  tempo! Seu cabelo  o cabelo mais esq
uisito que j vi na vida! - desabafei,
antes de olhar para o cabelo dele pela ltima vez para dar uma ajeitadinha no meu.
Fui pra casa pensando em como fui louca de encontrar um cara que conheci na net e do qual no sabia absolutamente nada.  o que
dizem, a net e seu anonimato podem
gerar vrios tipos de malucos.
Que podem at parecer normais e apaixonados  primeira vista, mas no passam de malucos.
Bom pra aprender: namoros, apenas no mundo real. E com gente que no cabelo s passa xampu e condicionador. S.

Correndo com o amor

"I wanna rock and roll all night", do Kiss, no volume mximo do meu discman, era a primeira de uma srie de msicas que embalava
m meus cinqenta minutos de corrida.
Eu sempre gostei de correr com msica aos berros nos meus ouvidos. E sempre gostei de correr pela manh, o que eu s conseguia f
azer aos sbados e domingos, porque
estudava de manh.
A manh  o nico momento do dia em que eu, tagarela nata e assumida, no estou nem um pouco a fim de falar. Sou assim desde peq
uena. Eu simplesmente no falo de
manh. Na verdade, sou uma vaca de manh. Quem fala comigo leva patada, invariavelmente. Mas todo mundo l em casa sabia disso e
 nunca puxava assunto comigo antes
de meio-dia. A corrida representava os minutos que eu passava comigo, com a minha cabea, com o meu corpo, com a minha companhia
, em total silncio.
Correr era assim at eu conhecer o Jaiminho, namorado que ficou comigo pouco mais de um ms. Um ms que pareceu um ano, vale fri
sar. Ele era namorado do tipo grudentinho.
Sabe garoto grudentinho? Que liga sete mil vezes por dia e quer fazer tudo junto com voc? Estudar com voc, sair com voc, ir 
 esquina com voc e, crime dos crimes,
sair com voc e suas amigas. O Jaiminho era assim. Parecia um chiclete na sola do meu sapato. E, para piorar, inventou de correr
 comigo.
No podia dar em boa coisa, n?
Jaiminho era um menino conversador. Muito conversador. Conversava pelo simples prazer de conversar, coisa rarssima em se tratan
do de seres do sexo masculino. Logo
eu, que vivia reclamando que homens no conversam, peguei o nico homem tagarela do planeta.
Era sbado, o sbado em que ele decidiu virar atleta de fim de semana. Desci pra correr na esteira do meu prdio e ele j estava
 l, se alongando. Claro que ele
escolheu a esteira ao lado da minha, para correr grudado comigo.
- Ai, mo Aqui, reservei essas duas esteiras. Casal que vive unido corre unido, n, Mojuco?
- ... - respondi, zero empolgao.
Na verdade, quase corri de volta pra casa Ningum merece apelidinhos ridculos quando no est apaixonada! Ainda mais de manh.
- Quer que eu te ajude a alongar, mom? D aqui sua perna que eu seguro - ofereceu-se ele, j levantando a batata da minha perna
 e me desequilibrando, cena bizarra
- No, Jaiminho. Pra com isso! Eu me alongo sozinha! - reagi, pau da vida.
No acreditei que eram 10 da manh e eu j tinha dito mais de uma frase.
- Quer aginha? Melhor beber pra refrescar - aconselhou, pegando meu queixo e botando a garrafinha na minha boca como se fosse u
ma mamadeira. Segunda cena bizarra
da manh.
Como no abri a boca, fiquei toda molhada. Molhada de gua gelada, pingos gelados entrando narinas adentro e se espalhando pela
minha pele sequinha e quentinha.
De manh. De manh!!!
- Caraca, Jaiminho! No quero gua, s bebo depois de correr! - protestei, passando a mo pelos pingos e conferindo se meu discm
an no tinha sido atingido pela gua.
- Que  isso, momojuco? Vai correr com discman? Achei que a gente ia correr e conversar!
Quase dei um piti.
- Conversar? Conversar, Jaiminho!? Correr e conversar no combina! D dor no canto da barriga! Correr  uma coisa pra gente faze
r em silncio,  meditao em movimento,
sacou?
- Saquei... - conformou-se, a tristeza em pessoa. - T  bom, eu respeito isso. T feliz s por estar aqui com voc.
E eu t infeliz s por voc estar aqui comigo, pensei em dizer. Mas no disse, ia ser muita grosseria, tadinho.
Comecei a correr. Os cinco minutos iniciais tinham se passado. De repente, com meu discman despejando som bom para dentro da min
ha cabea, uma mozinha nervosa comeou
a acenar na minha frente. Era Jaiminho, que mexia o brao freneticamente para chamar a minha ateno.
Mais alto que meu discman, ele perguntou:
- Voc sabe?
- O qu?
- O nome da mulher do Banderas?
- Qu? - gritei, tendo que virar para o lado e olhar para ele, pra tentar fazer leitura labial. Quase ca da esteira.
- A mulher do Banderas! - berrou.
- Melannie Griffith - respondi pau da vida, depois de abaixar o som e reduzir o ritmo da corrida.
- Ah, t. - Pareceu satisfeito.
Aumentei o volume do discman e acelerei o ritmo de novo.
A mozinha nervosa logo voltou a acenar freneticamente na minha frente.
- Voc sabe?
- Sei o qu, Jaiminho? - perguntei, bem irritada, tirando o fone do ouvido.
- O nome do filme com aquela menina que parece a mulher do Banderas e aquele cara de olho azul?
Mais uma vez, meu humor quase me tirou do srio. Que assunto era aquele? s 10 da manh! Da manh! Todo mundo tem olho azul em H
ollywood, santo Cristo!, tive vontade
de berrar. Mas fui fofa.
- Que cara? Que mulher parecida com a Melannie Griffith?
- Uma loura! Vai falando o nome das louras que eu vou lembrar, tenho certeza.
Falar os nomes das louras? Que  que  isso? Uma gincana? Achei que tinha deixado claro que no gostava de conversar correndo!
Com o humor no p e a m vontade grudada no meu rosto suado, comecei:
- Madonna.
- No, m, se fosse Madonna eu ia saber o nome, n?
- Gwyneth Paltrow.
- No.
- Cate Blanchet.
- No!
A cada no dele a minha irritao aumentava. Pra onde ia aquela conversa platinada, Deus meu?
- Jennifer Aniston.
- No! Ela no tem naaaada a ver com a mulher do Banderas!
- Ento no sei, Jaiminho, vamos voltar a correr,  sinal de que esse assunto no vai pra frente.
-  um filme cheio de prdios! Se passa em Nova York!
- Ah, ajudou muito agora - debochei, mais irritada do que no meu dia mais irritado de TPM.
Botei meu fone no ouvido de novo e, bufando, continuei a correr.
Levei um cutuco que quase me derrubou da esteira. Era ele, todo felizinho, louco pra dizer que...
- Lembrei!  Meg Ryan!  da Meg Ryan que eu quero falar!
- Ah... t... - respondi, louca, LOUCA pra saber que informao importantssima ele tinha a dar sobre a Meg Ryan, uma atriz para
 a qual eu no ligo a mnima. Se
ainda fosse a Julia Roberts!
Eu estava esperando uma fofoca, um escndalo, um babado fortssimo que justificaria o fato de ele me interromper de cinco em cin
co segundos. Meg Ryan presa com quilos
de cocana na mala do carro, Meg Ryan na capa da Time, nua, flagrada com dois sarados num motel barato de beira de estrada, Meg
Ryan devorada por ursos durante piquenique,
Meg Ryan mata amante a facadas e se mata depois.
- Como ela t envelhecida, n? Vi ontem um filme dela com aquele de olho azul, o Russel Crowe, e fiquei impressionado. A minha m
e tem certeza de que ela botou botox,
mas eu acho que ela aumentou a boca tambm.
Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo e contei um, dois, trs, quatro, cinco...
- Era esse o assunto?.
- Era! - confirmou, empolgadssimo. Interessadssimo naquela
conversa zero interessante.
- Eu caguei pra Meg Ryan, Jaiminho! T nem a se ela botocou a cara, problema dela! Cada um faz o que quer com a prpria cara!
- Eu sei, mas alm de botocada ela  cafona! Voc viu o vestido pssego que ela usou no Festival de Cannes? No combinava nada c
om o tom de pele dela!
Vestido pssego? Tom de pele? Que boiola!
- Jaiminhooo! Acho que voc t lendo muito essas revistas de fofoca, hein? Precisa ler mais a Placar e ver mais SporTV, sabe? T
 estranho isso. A gente t aqui correndo
e voc puxa um assunto que...
No deu tempo de terminar. Perdi o equilbrio e ca da esteira. Um tombo memorvel, do tipo videocassetada.
As pessoas que estavam malhando logo vieram ajudar.
Enquanto me socorria e, claro, falava, Jaiminho jogava em mim a gua gelada da garrafinha, j que "gelo cura", segundo ele.
- , Mojuc... Foi a Meg Ryan? Eu ia falar que voc nunca vai precisar botar botox, que mesmo velhinha e enrugadinha voc vai
ficar a minha linducha de sempre.
Era isso que eu queria dizer!
- Fala srio, Jaiminhoooo!!!
Sei que ele era suuuuperbem-intencionado. Mas o erro do Jaiminho foi puxar conversa de manh.
Terminei com ele. Na manh seguinte.

Mam e meus namorados

Apresentar garotos ao Mrio Mrcio, Mam para os ntimos (menos para minha me, que acha esse apelido o pior do mundo), sempre f
oi um problema. Super ativo, meu
irmo, que  trs anos mais novo que eu,  viciado em esportes e qualquer coisa que o faa ficar em movimento. Quando lhe aprese
ntava um namorado novo, em vez de
falar "Oi, tudo bem?", ele dizia:
- Gosta de pelada?
- Mulher pelada? ... - debochou Lucas, o gatinho da vez.
- No, bobo. Futebol!
- Gosto, mas nunca joguei a srio.
- Srio? Quer entrar no meu time? A gente t precisando de um ponta-direita.
- Vou adorar, cara! Quando  que vocs jogam?
- Agora. Bora?
- Bora!
- Como assim, "bora"? A gente no ia ao cinema? - indaguei, irritada
- P, Malu, deixa de ser chata!  rapidinho, em uma hora a gente t de volta - explicou Mam.
- Vou adorar jogar com o seu irmo. Assim  bom que a gente fica se conhecendo melhor.
- Mas o cinema era s set..
- Vamos na ltima sesso, a das nove e 15. Fechado?
- T, n?
- Vambora, cunhado! - gritou Mam.
E assim, meus namorados ficavam unha e cutcula com meu irmo. Impressionante o poder de uma partida de futebol. Basta uma para
os jogadores em questo, depois de
levarem tombos e caneladas desonestas, se tornarem os melhores amigos de infncia, mesmo sem nunca terem se visto na vida
Mistrios do universo masculino.
Quase duas horas depois, chegaram os dois. Lama pelo uniforme,
terra pelo corpo, roupa encharcada de suor, cabelo inacreditavelmente sujo e uns roxos aqui e ali. Pareciam estar voltando de um
a guerra.
- Oi, Maluzinhaaa! Foi demais o jogo! - contou Lucas.
- Ia ser perfeito se a gente tivesse ganhado - completou Mam.
- ... 37 a 3  piada. Quero revanche.
- Revanch! - gritou Mam, com cara de mau, narinas arreganhadas e testa franzida, como se estivesse num surto psictico, dand
o soquinhos repetidos no ar.
- Revanch! - repetiu Lucas, com direito a saquinhos idiotinhas no ar e alguns decibis a mais que Mam.
- Oi... desculpa atrapalhar a sede de vingana e revanche, mas... tudo bem? Lembra de mim?
- Ai, Malu, foi mal. Desculpa. Tudo bem? Como  que t a novela? O mocinho brigou com a mocinha pela trigsima vez? - gargalhou
Mam.
- No t falando com voc, Mam. T falando com o Lu...
- Ah, Malu, dou toda a razo para o seu irmo. Pode crer... Novela  um saco. A gente v o primeiro captulo, um no meio e o lt
imo e fica sabendo de toda a histria.
- Eu achei que voc gostasse de novela. Voc falou pra mim que no perdia um captulo.
- Que nada. Falei pra te conquistar. Mas agora voc j ta conquistada, posso dizer a verdade.
- Como assim?
- Vocs, meninas, se julgam to espertas... no sabem que a gente diz qualquer coisa, QUALQUER COISA, para conquistar uma garota
?
Eu me indignei. Mam rolou de rir.
- Boa, Lucas! O que mais voc disse pra ela?
- Que ela era muito mais bonita que todas as capas da Playboy juntas.
- R! E ela acreditou?
- Claro! - respondeu, vitorioso, sorriso desnecessrio no rosto. - E ainda disse que uma gatinha que faz televiso deu mole pra
 mim numa festa e que eu no quis
ficar com ela porque s fico quando me sinto apaixonado. - Ele se matou de tanto gargalhar.
- Isso era mentira? - perguntei, pau da vida.
- Claro! E eu tambm no gosto dessas musiquinhas que voc gosta. Falei s pra agradar.
- Irado, cara! - exclamou Mam, dando um tapinha ridculo na mo do Lucas.
- Engraado foi uma vez que eu disse para uma f do Skank que meu pai era primo do Samuel Rosa. Na mesma hora ganhei um beijao.

Mam se acabava de tanto rir.
- Nossa, no achei que voc era to falso... - desabafei.
- Ah, no fica bravinha, vai! S disse tudo isso porque eu tava muito a fim de ficar com voc... Vem c, deixa eu te dar um beij
o...
- Que beijo? T maluco? Voc t fedendo mais que um gamb, Lucas! Vai pra casa tomar um banho!
- Banho? Fala srio, Malu! Assim a gente vai se atrasar pro cinema.
- Eu no vou para o cinema com uma pessoa no seu estado. Se olha no espelho, Lucas Teixeira Pinto. Voc parece um homem das cave
rnas! Nojento! Nojbous!
Ele olhou para o meu irmo e riu com ele aquela risadinha de homem palhao, como se fosse muito, muito legal, a coisa mais lega
l do mundo, parecer um homem das
cavernas, nojento, suado, com cara de mendigo.
- Nojbous! Rrrrr! Mulher inventa cada bobagem! - ridicularizou-me Mam.
- Nojbous vai ficar pra histria! Pra histria! - incentivou Lucas.
Diante da minha cara de nojo, depois do ataque de riso, Lucas foi tomar banho na casa dele. Meia hora depois sua me ligou dizen
do que ele tinha apagado na cama.
Estava morto de cansado depois da pelada.

No dia seguinte...
- Lucas! Tem aula experimental de capoeira na academia aqui da esquina. Quer ir?
- T dentro, Mam! Quando ?
- Agora!
- Vambora!
- Sem nem um beijinho, Lucas?
- Depois, amor, j, j t de volta.
E l ficava eu sem namorado (e sem beijo) de novo.
- Vai ter campeonato de natao com a galera da vizinhana. T a fim de participar? - perguntou Mam noutro dia.
- Demorou! Adoro nadar! Sempre nadei, parei h pouco tempo.
- Bora treinar?
- Bora!
- Como assim, "bora"? A gente no ia sair com os seus amigos?
- Eles esperam. Voc tem uma sunga pra me emprestar, Mam?
- Claro, brother, bora l no meu quarto.
E eu ficava sem namorar o namorado da vez por dias e dias. Perdia os caras para o Mam num piscar de olhos, e sempre para esport
es. Tudo, menos eu: futebol, natao,
capoeira, jogo de boto, plo aqutico, vlei, basquete, peteca, pingue-pongue, tot, corrida, passeio de bicicleta noturno...
- Vamos, Malu! Vai ser maneiro pedalar  noite... - empolgou-me Lucas.
- E perder minha novela? Nem pensar! - desdenhei.
Quando dava por mim, parecia que o meu irmo tinha se apossado dos meus namorados. Quando o cara da vez tinha alguma queda por e
sportes, no tinha jeito, o Mam
me goleava de 10 a zero. E eu acabava tendo que botar um fim nos meus relacionamentos. Na maioria das vezes, por causa dele. No
 dava para competir com o meu irmo.
- A gente precisa conversar.
- Ah, no... No quero ouvir.
- Quer, sim. Eu sei que vai ser difcil pra voc encarar isso, mas...
- No, no me diz que...
-  isso mesmo que voc t pensando...
- No!!!.
- Sim. Eu quero terminar.
- No fala uma coisa dessas, Malu! Por favor!
- Esse namoro t me sufocando.
- Voc diz isso pra todos.
- No est mais dando certo.
- Por qu?
- Porque acabou o amor.
- Como assim? Ele  o cara mais legal que voc j namorou - dizia Mam, com lgrimas nos olhos. - Um cara que gosta de voc,  s
eu amigo,  gente boa...
- Mam, presta ateno, o Lucas adora voc...
- Adora nada!
- Adora, sim.
- Mentira sua!
- Verdade.
- Se voc disser que vai terminar com ele por minha causa ele vai correr pra voc que nem um cachorrinho.  sempre assim! - irri
tou-se, fazendo bico de pirraa.
- Claro que no. Mesmo se ele quiser ficar comigo eu no vou querer. A gente no combina.
- Como no? Ele faz o melhor macarro instantneo que eu j comi na vida! E voc ama macarro instantneo...
- Mam, no dificulta as coisas... Vocs vo continuar a ser amigos...
- Que nada! Esse papo  ridculo, isso nunca acontece. Amigo a gente ia ficar quando a gente fosse pra aula de carat... Carat
 to a cara dele... Voc  uma insensvel,
mesmo...
- Vocs podem continuar a praticar esporte juntos.
- No podemos nada! Voc e seu ego gigante cortaram mais uma amizade maneira que estava nascendo.
- Existem outros caras legais no mundo, Mam...
- No que nem o Lucas... O Lucas  especial, Malu... - chorava Mam.
- Eu tambm sou... Eu mereo algum que goste de mim de verdade.
- O Lucas gosta de mim de verdade.
- De mim, Mam! De mim! - gritei.
-Ah, t. Poxa, ele gosta de voc...
- Mas gosta muito mais de voc, vai... - disse, arrancando um sorrisinho orgulhoso do meu pirralho favorito.
- Vocs vo continuar se falando?
- No sei, essas coisas no so fceis de prever.
- Ele falou de mim pra voc?
- Falou. Disse que adoraria ter um irmo como voc. Com a irm ele no tem assunto, ela  uma CDF que s pensa em matemtica...
- A Sofia  fera, inteligentssima aquela garota.
- Voc sabe o nome da irm dele? T boba...
- Voc no sabe? Caraca, Malu, no sei como voc arruma uns caras to legais sendo to metida. Voc  uma metida! Metida! - irri
tou-se, antes de sair correndo para
o quarto para fazer manha.
Quando fui conversar com o Lucas, foi bem mais fcil.
- No d mais...
- Beleza, j estava prevendo isso, mas...
- Ns podemos continuar a ser amigos, claro... - fui fofa.
- T, mas... eu posso continuar amigo do Mam?
Sem mais palavras, respondi o que tinha de responder:
- Claro que pode. Fala srio, Lucas!

Malena e meus namorados


Quando mame achou que no engravidaria mais, a minha irm Malena j dava os primeiros sinais de vida dentro da barriga dela. El
a  seis anos mais nova que eu e
sou absolutamente apaixonada pela minha pirralhinha. Paixo incondicional mesmo. s vezes ela me perturbava, sabe como  relacio
namento entre irmos. Mas na maioria
das vezes era uma criana espirituosa, alegre e cheia de tiradas fantsticas.
Sempre gostei de apresentar meus namorados pra ela, eles normalmente ficavam fascinados com a espontaneidade da minha irm caul
a, e se um namoro estava pra engrenar,
depois dela engrenava de vez. A Malena era meu p de coelho, mas s vezes ela no ia com a cara dos caras! E eu sofria com a pir
ralha. Foi assim com o Cludio, um
ator que conheci no curso de teatro.
- Malena, esse aqui  o Cludio.
- Oi, bonitinha.
- Oi, feio. Voc  feio, feio, hein, menino? - decretou ela, do alto de seus dez anos, suuuuper fofa.
- Malena! - vociferei.
- Isso  um elogio, Malu! Voc s gosta de menino feio, no ?
- Ufa! Que bom! - brincou ele.
- O Cludio  ator - puxei papo.
- Faz novela? - indagou ela.
- No.
- Ento no  ator.  praticamente um desempregado. A mame vive dizendo que teatro no d dinheiro e que ator  tudo morto de f
ome.
- Malena!
-  difcil mesmo ser ator neste pas - concordou Cludio.
- Fica famoso, vai! Vou adorar conhecer um famoso.
- Vou tentar.
- A voc me leva nas festas e deixa eu te exibir pras minhas amigas?
- Deixo, claro.
- Voc tem carro?
- Ainda no...
- Poxa. como  que vai me levar pras festas, ento? Fica famoso logo! E rico. No adianta ser famoso pobre.
- Pode deixar!
- O problema  que com esse nariz gigante e essa pele toda furada fica difcil voc ir pra tev. Mas tem maquiagem, n? E se voc
 tiver talento...
- O Cludio  talentoso, Malena.
- Voc me disse ontem que ele no  talentoso. Ele  es-for-a-do,  diferente.
Quase voei no seu pescoo.
Cludio pareceu no se importar com o comentrio.
- Atuar  um exerccio dirio, uma carreira que exige muito estudo, muita dedicao... Talento  uma coisa que a gente vai const
ruindo aos poucos...
- Se voc tem talento, chora, ento, pra eu ver.
- Malena tem mania disso. J encontramos na rua o Antonio Fagundes e a Gloria Pires, e nas duas vezes ela pediu pra eles chorare
m.
- Srio? E eles?
- No choraram. Apertaram a minha bochecha e falaram com voz de nenm ", que fofiiiinha" - contou Malena, irritada. - Pra mim.
Ator que no chora no tem talento
nenhum. Chora!
- Ah, assim, sem concentrao, no d...
- Iiih, pssimo ator. Pra ser ator tem que saber chorar que nem eu...  - ela decretou, enquanto seus olhos enchiam de lgrimas.
A minha irm sempre teve uma capacidade
surpreendente de chorar  hora que bem entendesse. Choro falso, que fique claro.
- Uau! Voc tem talento.
- , mas no vou ser atriz, no. Os atores trabalham muito e ganham pouco. S uns sortudos  que se do bem. O que eu quero mesm
o  ser top model internacional ou
cantora de funk rebolativa. Sou tima cantora e tima danarina, ao contrrio da Malu.
- Nossa, que decidida!
- Eu sei, planejo minha carreira desde pequena. Se eu no virar uma pessoa magrela ou uma cantora bem-sucedida, vou pra academia
 malhar "bastante, ficar com a bunda
dura e posar pelada pra alguma revista. No vou ficar rica, mas vou ter meu apartamento. Todo mundo que posa diz que s posou pr
a comprar apartamento. E ter um apartamento
s pra mim e pras minhas bonecas vai ser irado, n?
- Malena!
- Eu sei, eu sei o que voc vai dizer. Se meu peito no crescer vai ter que rolar um silicone antes da Playboy, n?
- Claro que no! Eu ia dizer que  um absurdo voc pensar essas coisas! - bronqueei.
- Malu! A Playboys vai rolar se eu no der certo como top model Internacional. Al-ou! Mas j pensou? Eu em todos os programas
de auditrio e revistas de celebridades
contando que s fiz as fotos porque escolhi o fotgrafo, o lugar das fotos, o cach... - Riu.
Malena sempre me surpreendia.
- Qual seu signo, menino?
- Leo.
- Sei. Metido, egosta e temperamental. Chatiiiinho...
- To pequena e j ligada em horscopo?
- No,  que minha melhor amiga  leonina.
- Ah, t... - fez, embasbacado.
- O bom  que voc combina com a Malu. Leo  fresco e ela  super fresca.
- Ela  fofa.
- Fresca. No come fruta-do-conde, tangerina e melancia s porque tem preguia de cuspir os caroos. Fala srio!
- Ento t, n, Malena? Esto apresentados. Vamos, Cludio?
- Espera a! T gostando de conversar com a sua irm. Ela  super autntica Quantos anos voc tem, bonitinha?
- Ai, pra de me chamar disso? Eu sou bo-ni-ta, sem esse "inha" A.
- Ah, claro, desculpe, bonita. E ento, quantos aninhos voc tem?
- Tenho dez anos, muito cabelo, lindas bochechas, sou tima aluna e namoro o Pedro Mucks.
- No era o Joo Paulo? - questionei.
- No, o Joo Paulo no quis pagar meu lanche na cantina outro dia. No suporto garoto po-duro. Alis, a Malu  a maior mo-de-
vaca, no abre a mo nem pra dar
tchau. Cuidado pra ela no te deixar mais pobre ainda. Ela sempre vem com um papinho de "ih, esqueci a carteira...". Abre o olho
, Otvio.
-  Cludio, Malena!
- Ah, , desculpa. Otvio foi o da semana passada...
- Como  que ? Fala srio, Malu! Voc estava com outro na semana passada?
- Claro que no.
- Claro que tava. E ele era muito melhor que voc, viu? Bem mais legal tambm. Quer ser astronauta em vez de ator. Muito mais ir
ado.
- Malenaaaa!!!
- Tchau, Malu.
- Cludio, eu posso explicar melhor. O Otvio  meu amigo... -esclareci enquanto ele se levantava da mesa onde estvamos.
- Desde quando voc beija amigo na boca? - irritou-me Malena. Foi a deixa pra ele sair em disparada da lanchonete, soltando fuma
a pelo nariz.
- Posso saber por que voc fez isso?
- No gostei dele. Cabelo desgrenhado e barba por fazer. Ia me arranhar toda quando viesse me beijar.
- Caraca, Malena. Voc  bem filha da mame, mesmo, hein?
- Eu sou sincera. O Otvio  bem mais legal.
- Por qu?
- P, o cara prometeu me levar pra Lua com ele! J pensou eu num foguete, que mximo?
No consegui argumentar.
E confesso que depois do episdio Cludio fiquei bem tentada com a idia de ver a Malena num foguete, passando umas frias prolo
ngadas no espao.

17 ANOS

Mentiras sinceras me interessam

Todo fim de ano  a mesma coisa, j virou um ritual: entre as inmeras promessas que fao, a que encabea a lista  "Nunca mais
vou beber refrigerante. Engorda e
d celulite". Repito isso trs vezes enquanto pulo trs copos de Coca-Cola dispostos no cho. Bato na madeira trs vezes e, por
fim, dou trs goles de gua, para
me conscientizar de que isso, sim,  uma bebida saudvel.
Essa promessa  a primeira que quebro. Sempre amei refrigerante. E como no gosto de nada diet e light, o jeito  engordar com a
quelas deliciosas bolinhas gasosas
que me enchem de prazer ao entrar em contato com meu estmago.
O que eu devia prometer  "nunca puxar assuntos como celulite com namorados", mas sempre esqueo. E acabo vivendo discusses inf
indveis com os pobres dos meus namorados/rolos/fica
ntes.
Uma vez foi com o Sidney, na praia:
- Olha pra minha bunda, Sid!
Ele prontamente atendeu ao meu pedido. Homens!
- Linda!
- Arr. Mas e a?
- E a o qu? T linda.
- T com menos celulite?
Ele gelou.
- Tava com muita?
- No sei, Sidney. Voc me diz: a minha bunda t com muita ou
pouca celulite agora?
- T com... pouca?
- Pouca? Que  que  isso, Sidney? A resposta era "t sem nenhuma celulite. Sua bunda t lisa que nem asfalto novo"!
- Desculpa, eu nem sei o que  celulite.
- Como assim? J te expliquei mil vezes!
- Desculpa, o meu crebro s vezes no registra algumas coisas
importantssimas como essa - debochou.
- D!!!
- Diz, meu amor, o que  celulite?
-  uma espcie de depresso na pele da bunda e da coxa, parece
uma casca de laranja.
Ele se ajeitou na cadeira para observar melhor.
- Ah, ento eu t vendo sim. Uma aqui, duas, trs... quatro! Quatro casquinhas! E tem umas menores, que no chegam a ser cascas
de laranja, mas esto treinando pra
chegar l.
- Como  que ? Olha aqui, Sidney, eu nunca fui to magoada em toda a minha vida.
- Por qu?
- Porque voc t dizendo na cara da minha bunda que eu estou
cheia de casca de laranja. Casca de laranja tem a sua av!
- No fala assim! Respeito com a vov! E ela nunca teve esses
negcios esquisitos que voc t me mostrando.
- Ah, quer dizer que a bunda da sua av, que tem 75 anos, 
melhor que a minha, que alm de gorda  esquisita?
- Sua bunda no  gorda, eu no disse isso! Ela tem ce-lu-li-te, 
diferente! - ele retrucou, dando desnecessria nfase  celulite.
- Isso, fala mais alto, a velhinha surda que t tomando gua-de-coco no quiosque do calado no escutou.
- Caramba, mas no era isso que voc queria saber?
- , Sidney, voc no entende nada de mulher, viu? Nada!
- Mas voc no perguntou?
- Era pra mentir, seu animal! Pra dizer que eu nunca estive to linda e que a minha bunda d de mil em qualquer bunda da Playboy
! Mas eu achei que voc gostaria
que eu s dissesse a verdade.
- Nem sempre. Uma mentirinha branca de vez em quando no faz mal a ningum. Agora vou achar que o creminho em que eu gastei toda
 a minha mesada no adiantou nada.
- Adiantou, sim. Sua bunda t... t linda! Lisa que nem asfalto novo!
- Agora no  hora de mentir, Sidney! Fala srio, Sidneeeey!

Um namorado e suas ex

O Serginho era daqueles meninos especiais. Gentil, cavalheiro, bem-humorado, bem vestido, bem cheiroso... Tinha certeza de que e
le no seria s uma cosquinha no
corao, mas sim um terremoto em todas as clulas do meu corpo. Pensava nele a todo minuto, falava com ele 37 vezes por dia e, q
uando estvamos juntos, irritvamos
os outros, tamanha a nossa felicidade e a paixo que faiscava nos nossos olhos e nos beijos interminveis. Estava com ele havia
pouco mais de um ms, mas parecia
que o conhecia h anos, dcadas, milnios.
Um dia, ele quis ir comigo (ateno: quis ir comigo!) ao shopping (shopping!) no sbado (sbadoooo!) para comprar um presente de
 aniversrio para o meu pai. Disse
que mulheres no sabem escolher presentes para homens e que pais merecem presentes perfeitos, nada de meias ou pijamas. Por isso
, ele quis me dar uma forcinha na
escolha. No era lindo o meu Serginho?
Pontualmente, como sempre, ele chegou l em casa para me buscar.
- Nossa, como voc est linda! - elogiou.
- Ah, pra! Peguei a primeira roupa que vi no armrio - menti,
charmosa, para no entregar que fiquei trs horas escolhendo a roupa, escovando o cabelo, fazendo a unha e me perfumando s pra
ele.
A multido de gente que anda em grupo e bem devagar nos shoppings normalmente me tira do srio, mas com o meu Serginho nada me d
eixava de mau humor. Antes de irmos
s lojas, ele sugeriu que fssemos  praa de alimentao. Eu odeio cheiro de praa de alimentao, ainda mais aos sbados, com
aquela barulheira de gente comendo
e falando, falando e comendo, crianas chorando, filas interminveis. Mas com o Serginho eu no via ningum  minha volta. S ti
nha olhos para ele, que s tinha
olhos pra mim.
Mas outras pessoas tinham olhos para ele.
- Oi, Serxinhuuu - cumprimentou-o uma ruiva simptica demais
para o meu gosto.
Serxinhuuu? Que  que  isso, minha gente? Que intimidade desnecessria!
Fiquei cabreira.
- Oi. Juju.
- Oi, quem? - retrucou ela.
- Oi... Xuxu... Tudo bem? - fez ele sem graa.
- Melhor agora, meu docinho...
- Essa aqui  a Malu.
- Arr. T com saudade. Serxinhuuu. Me liga, t? - pediu insinuante.
- Quem ? - quis saber eu.
- Uma ex. Acho que ela ainda gosta de mim.
Tadinho...  isso que d ser lindo, gostoso e especial. As meninas
no desapaixonam nunca.
Depois da primeira mordida no meu cheeseburguer...
- Serginho, meu urso! H quanto tempo no te vejo!
Urso? Que apelido ridculo!
- Oi, Clara...
- Como  que t a vida?
- T tima. Essa aqui  a Malu.
- Arr. Me liga quando puder. Pra gente conversar e... ah... voc
sabe...
Piscou o olho pra ele, ignorou minha presena e foi embora.
- Outra ex?
- .
- Tambm apaixonada?
- Pois ... Fazer o qu, n?
Quase no fim do nosso lanche...
- Ora. ora, se no  o palhao que nunca me d carona?
Ufa! At que enfim uma menina que no gostava dele. J estava
achando esquisita essa histria.
- Oi, Laura. Malu essa  a Laura minha prima - ele nos apresentou. - Desculpa. Laurinha, mas sa de casa mais cedo. Tive que faz
er um monte de coisas antes de vir
pra c.
- Olha como ele , um fofo com todas e um palhao com a prima.
- Cuidado, hein, Malu!? - avisou ela antes de sair.
No consegui responder. Fiquei pensando no "todas".
Aquilo continuava muito estranho.
Entramos numa loja. A vendedora veio nos atender sorridente cheia de dentes na boca.
- At que enfim voc veio me fazer uma visita... Tava com saudade... - derreteu-se.
- Oi... ai. Dara - disse ele tentando se esquivar do abrao oferecido e dos beijos ainda mais oferecidos da menina.
Meu Deus, o Serginho pegou a Tijuca inteira! E todas as ex so loucas por ele. Por qu?
Serginho parecia no se abalar. Continuava me tratando como se
eu fosse a nica mulher do mundo e me apresentando pra todas.
- Dara, essa  a Malu.
- Olha, uma nova amiga?
- .
Amiga? Como assim amiga?, quase perguntei.
Samos da loja o mais rpido possvel e eu quis saber:
- Serginho, qual  o seu problema, hein? Eu achei que fosse mais
que sua amiga.
- Ah...  isso?  que...  que eu no posso dizer pra elas que voc  minha namorada...
- Por que no? - enfezei-me.
- Porque... como  que eu vou explicar... porque...
Enquanto ele caava as melhores palavras, uma morena peituda agarrou sua cintura e lhe tascou um selinho. Selinho!
Fiquei chokita.
- Inho, seu safadinho! T esperando voc me ligar! Quando vou te ver de novo?
- Nunca! Porque ele agora t namorando comigo.
- Namorando?! Que  isso, Serginho, semana passada a gente
tava namorando.
- Como  que ? - estrilei.
- Calma, meninas, eu posso explicar...
- Explica rpido, Serginho - ordenei, irritadssima.
- Eu estava tentando dizer exatamente isso pra voc, Malu... Eu,
eu... Eu no gosto de terminar.
- Eu tambm no, e da?
- Eu no sei terminar.
- Ningum sabe! Qual o problema?
- Nenhum problema. Justamente para no ter problema, quando
eu no quero mais namorar uma menina, eu simplesmente dou uma sumida.
- Odeio garoto que pra de ligar. Que covarde!
- No  covardia.
-  fofura - completou a morena, toda derretida.
- Isso!  fofura! Obrigado, Lorena.
- Me diz o que  que tem de fofo em parar de ligar? Eu acho o
cmulo da covardia.
- Lorena, linda, mais tarde te ligo, agora preciso resolver um problema aqui.
- T bom, Inho. Mas liga mesmo, t? - pediu, antes de dar nele um selinho de despedida.
- Quer me explicar direito essa histria de parar de ligar?
- Eu paro de ligar para no dar um fim ao namoro.
- Ah, ? Ento  como se voc no terminasse com elas!
- Isso, Malu! Por isso, quando elas ligam querendo sair, eu saio.
No gosto de fazer ningum sofrer, entende?
Eu estava boquiaberta.
- Voc sai com as suas ex?
- Saio.
- Por qu?
- Porque, na verdade, na verdade, elas no se sentem ex. Pra mim
elas so, claro, mas na cabea delas  como se ns continussemos juntos.
- Sei...
- Ento, pra no deixar nenhuma magoada, porque no  da
minha natureza magoar ningum, eu fico com elas de vez em quando.
- Voc fica com elas? Com todas elas que a gente encontrou no
caminho? Fala srio, Serginho!
-  ficada sem importncia, Malu.  ficada de amigo.  quase uma ficada por obrigao.
- Deixa eu ver se entendi... voc fica com elas e comigo,  isso?
- Isso! Isso mesmo! Mas voc  a oficial, as outras so meninas que s vezes eu chamo de amigas, outras de ex... No na frente d
elas porque seno elas ficam...
- Magoadas. Entendi.
- Que bom que voc entendeu, Maluzinha.
- T indo pra casa.
- Por qu?
- Porque t magoada.
- No! No faz isso comigo, no agento ver mulher magoada!
Malu! Maluuuu!
Sa do shopping e fui pra casa. Pensando em como a gente se engana com as pessoas.

Cime de voc

Comeo de namoro  sempre aquela maravilha: a paixo encobre todo e qualquer defeitinho do outro, o mundo fica mais bonito quand
o estamos com a pessoa amada, a gente
fica mais bonita quando est amando... E chega ao cmulo de achar cime, uma praga humana que no serve pra nada, bonito.
- Voc vai sair com essa saia? Sua perna t toda de fora - criticou-me Jorginho, meu novo namorado, na primeira noite em que sa
mos juntos.
Em vez de ficar irritada e mandar um "Se quiser namorar comigo vai se acostumando, porque eu gosto de saia curta e no vou deixa
r de usar por nada!", achei bonitinho
ele se preocupar com as minhas pernas.
- ! Que fofo! T com cime, ? Pera que vou trocar.
Burra. Mil vezes burra. Da pra frente foi um festival de "No vai
sair com esse decote messssmo, seu peito t praticamente de fora!", "Esse umbigo precisa estar  mostra desse jeito?", "Mulher m
inha no vai pra rua de vestido transparente,
no".
Em pouco tempo, meu guarda-roupa parecia o de uma freira.
- A burrice foi voc no ter cortado logo da primeira vez - opinou Alice.
Certa, certssima.
E a situao estava s comeando a piorar. Quando marquei Uma
sada apenas com as meninas, quem apareceu de surpresa?
- Oi, Maluzinha! Seu amor chegou!
- Jorginho! No disse que hoje era um dia s com as minhas amigas?
- Fiquei com saudade!
- Vai pra casa, depois a gente se fala.
- Vou no, quero ficar aqui com vocs. Atrapalho?
- Claro.
- Por qu? Esto falando mal de mim, ?
- No, o mundo no gira em torno de voc - irritei-me.
- Do que  que vocs esto falando, ento? Responde. Se no responder logo  porque estavam falando de alguma coisa suspeita, de
 algum cara...
- A gente estava falando da infeco urinria da Nanda. Pronto. Est satisfeito?
- Malu! --zangou-se Nanda, nada satisfeita comigo.
- Desculpa, tambm estamos falando da Duca, que acha que t com hemorrida.
- Malu! - Foi a vez de Duca reclamar.
- Mulherada, no precisa ficar nervosa, meu tio  mdico e tenho
certeza de que vai poder indicar timos profissionais para vocs. Viram como  sempre bom ter um homem com vocs? A gente pensa
mais rpido,  mais prtico.
Ele se meteu na minha vida mais do que devia. Minhas amigas amarraram a cara e depois me deram um gelo de cinco dias. E com raz
o. Tadinhas, viram suas vidas devassadas
para um quase estranho (j que eu estava com o Jorginho h pouco mais de duas semanas).
O problema  que o cime no se limitava s roupas nem s sadas com as amigas.
Num show, eu conheci o verdadeiro Jorginho.
- Qual, cara? Que  que t olhando? A garota tem dono, vaza! - gritou ele, estufando o peito, para um garoto franzino de uns 14
 anos que me perguntou as horas.
- Jorginho, que  que  isso? Era s um menino.
- Pois , esses so os piores, tm cara de beb mas so os mais safados.
- Coitado, ele tava s perg...
- Que , mermo? Nunca viu? Bunda, mermo, mermo, bunda. Bonita a bunda dela, n?  minha. Mi-nha!
- Jorginhoooo!
- P, cara idiota, olhando sem piscar pra sua bunda. Sua bunda  minha.
- No  no. Minha bunda  minha.
- Enquanto voc estiver comigo  minha e no se fala mais nisso.
Que , boiolo? Nunca viu mulher bonita, no, ? No  pro seu bico, no.  minha! Mi-nha!
- Pra de puxar briga com todo mundo, Jorginho, eu estou ficando constrangida.
-  que eu te amo, Malu!
- Fala srio, Jorginho! Amor no  isso, no. Quem ama confia.
- Confiana... Voc acha que eu acredito mesmo nesse negcio de confiana? Mulher  tudo igual,  s a gente olhar pro lado que
vocs cru!
- Cru?! - repeti, indignada com a hum... palavra usada, e com a constatao de que meu novo namorado era um troglodita.
-  cru, sim! Vocs metem um par de chifres na gente sem d
nem piedade! E eu no nasci pra ser chifrudo. no, sacou?
- Mas eu confio em voc. Voc tem que confiar em mim.
- De jeito nenhum. , cumpadi, d pra tirar o olho da barriga da minha namorada? Barriguinha lisa, barriguinha gostosinha, n?
- No tava olhando nad... - tentou se defender o cara.
- Qual ? Vai encarar? Vai encarar? Gostosinha  tua me! - exasperou-se Jorginho.
- Que  isso, eu no...
- Sou faixa preta de jiu-jtsu, quer porrada, vai ter porrada! Vem, vem! - desafiou ele, j partindo pra cima do coitado.
Que cena horrorosa: o troglodita do meu (que vergonha!) namorado se engalfinhando com o garoto, que nem sei se estava mesmo olha
ndo para a minha barriga. No fiquei
pra ver o fim da briga, sa correndo para chamar os seguranas.
Violncia? Que coisa mais cada! Eu no merecia isso, sou to da paz! E acho deprimente briga, principalmente em lugares pblico
s. Ainda mais por um motivo besta
como cime.
No atendi mais aos insistentes telefonemas do Jorginho. Um dia ele parou de ligar e eu parei pra pensar que nunca, nunca mais e
u mudaria meu jeito de ser para agradar
a um namorado. Mudanas, s se eu quisesse, e olhe l. E namorado ciumento, nunca mais!

 cada um que me aparece... 3

Na fila do cinema, estamos eu e minhas amigas prontas para assistir a uma comdia romntica e devorar um saco gigante de pipoca.
 Moreno magrelo de cabelo encaracolado
se aproxima.
- Voc  linda.
- Obrigada - agradeci fofa mente.
- Francisco. Prazer. Qual  a sua graa?
Uuuui!
-  Malu.
- E a, Malu? Gosta de cinema?
No, idiota. Estou aqui por obrigao, pensei em dizer.
- Gosto muito - preferi responder.
- Suspense, ao, tiroteio ou filme mulherzinha?
- Todos.
- Vem sempre ver movies nos fins de semana?
Quase vomitei com o "movies".
- No. s vezes prefiro ficar em casa lendo um livro.
- Livro? Fala srio! Por qu?
- Porque sim - respondi, seca
- Nossa! No conheo ningum que goste de livro.
Cada um que me aparece! Por qu? Eu sou to legal, to fofinha,
to gente boa, to limpinha...
- Veja voc...
- Mas beleza, cada um faz a sua opo, quem sou eu pra te recriminar?
Eu quero morrer! Morreeeer!!!, berrei por dentro.
- A gente pode trocar telefone pra se conhecer melhor. O que voc vai fazer hoje  noite?
- Vou ao teatro com o meu pai.
- Ao teatro? - reagiu, surpreso. - Com o seu pai?! - indagou, mais surpreso ainda.
- .
- Por qu?
- Porque eu gosto de teatro.
- Por qu?
- Porque tm peas timas em cartaz.
- E por que com o seu pai?
- Eu adoro sair com o meu pai.
Minuto de silncio. Ele estava processando aquelas informaes absolutamente incrveis e inverossmeis para uma pessoa do seu pl
aneta.
- Essa  boa! Uma filha gostar de sair com o pai, gostar de ler e gostar de teatro. Voc no existe, Malu.
- Nem voc, Francisco. Tchau, tenho que ir.
A fila andou.

18 ANOS

 cada um que me aparece... 4

Ivete em cima do trio, gente por tudo que  canto, de todo canto do pas, pulando e berrando, mos pra cima, abads molhados de
suor, alegria ao cubo, msicas bobas
e sem sentido cantadas com todas as cordas vocais e muitos, muitos beijos na boca em volta. Era meu primeiro carnaval na Bahia.
Folio bocudo se aproxima de mim. Era praticamente a verso masculina da Angelina Jolie. Ou seja, bocudo mesmo.
- Fala, gracinha!
Droga! Odeio diminutivo. E acho "gracinha" pssimo! Mas fui fofa.
- E a, graona?
, depois de duas cervejinhas eu sou capaz de falar qualquer
asneira, por isso sempre paro na segunda.
- T curtindo?
"Curtindo?" Que palavra medonha! Odeio essa palavra! Mas ele era to charmoso! To bocudo!
- T curtindo muito, muito! - respondi, aos berros, minha boca quase encostando no ouvido dele.
- Me d um beijo?
Ufa! At que enfim, pensei. Demorou pra pedir. Eu estava no carnaval da Bahia, afinal de contas! No precisa de muito teretet a
ntes de um beijo.
Beijei. Beijo bom, beijo muuuuito bom. Bocudo beijava que era uma loucura!
"E vai rolar a festa, vai rolar, o povo do gueto mandou avisaaaaar!"
Ivete cantava e a gente beijava, beijava.
- J volto - disse ele.
Eu me surpreendi. Normalmente, na Bahia, pelo que minhas amigas contavam, a galera beijava e ia embora beijar o prximo. Mas o c
ara gostou de mim, do meu beijo,
pensei. Caramba! Vou ter um ficante fixo exclusivo no carn baiano!, conclu.
No momento seguinte  constatao, fiquei em dvida se chorava ou se comemorava o fato de ter um ficante exclusivo. No tive tem
po de pensar muito no assunto, em
poucos minutos o bocudo estava de volta.
- Quer um gole da minha caipirinha?
- No, obrigada. Tomei cerveja, no posso misturar.
- Muito bem, menina. Muito bem. Eu sou nutricionista, e voc?
- Nutricionista? Nossa, que mximo!
Oba! Nunca mais vou fazer dietas mirabolantes, vou apenas ligar
para meu ficante nordestino (pelo sotaque fofo deu pra ver que ele era daquelas bandas) e pedir uma dieta balanceada. Gordura nu
nca mais! Eu ganhei na loteria! Agora
tenho um personal dieter! Minhas amigas vo morrer de inveja!, vibrei por dentro.
- Eu acabei de passar pra faculdade de jornalismo.
- Olha s, que carreira linda - bocudo disse antes de dar um
gole na sua bebida. - Droga, essa caipirinha t horrvel. Precisa de acar.
- Acar? Por que voc no bota adoante? Acar engorda...
- Gracinha... A acar no  a nica vil. As pessoas comearam a recriminar a acar de repente como se ela fosse a nica coisa
 que engordasse no mundo, mas acar
 muito melhor que adoante. Caf com adoante  um nojo, a acar d outro sabor ao caf. Concorda?
Concordo que voc  uma anta. Como  que um nutricionista diz "a" acar?, quase respondi. Deve falar tambm a caf, a sal, a ke
tchup, a agrio, o tangerina, o pimenta...
Preciso calar a boca do bocudo o mais rpido possvel antes que me desinteresse completamente por ele, pensei.
- Vem c - chamei bocudo na chincha. Puxando-o pela camiseta e tascando nele um beijo daqueles. Looongo, demorado, perfeito. Sou
 tima de beijo.
- Gracinha, que  isso?
- Eu sei, muito bom! - gabei-me.
- T apaixonado por voc. O que voc vai fazer mais tarde?
No tenho pacincia pra esses que falam logo em paixo... Tive
certeza de que ele estava com segundas intenes.
- Quero te apresentar pra mainha, ela faz o melhor acaraj de Salvador. J comeu acaraj?
- No - respondi, assustada com a idia de conhecer a me do nutricionista bocudo.
- Ento pronto. Vai comer hoje, depois do bloco, l em casa.
Mainha vai adorar voc. E painho tambm, ele  meio fechado, mas  s voc falar de novela que o velho se abre todo, adora
uma novela...
- Mas... - tentei me esquivar do programa famlia em pnico.
- Sem "mas", t combinado paixo, depois daqui voc vai l pra casa comigo, conhecer minha famlia - decretou, agarrando minha c
intura como se eu fosse sua propriedade.
E eu estava em pleno carnaval de Salvador! Eu queria beijar muuuuito! No s um nutricionista bocudo. E ele falava errado, no t
inha a menor chance comigo!
- Puxa, graona, no vai dar, t com umas amigas a...
- Leva as amigas... Assim  bom que j vou conhecer as amigas da minha namorada.
Namorada? Sai pra l, isso  carnaval!, eu quase berrei.
Meu querido Senhor do Bonfim, meus lindos orixs baianos... help me, please!!!!
- Graona, a gente no t namorando - esclareci.
- Como no. gracinha? E tudo que rolou entre a gente?
- Dois beijos?
- Dois beijos sensacionais, perfeitos! Eu quero casar com voc,
gracinha...
- No t muito cedo pra falar em casamento, graona? - apavorei-me.
- Que nada! Nunca  cedo pra amar. Voc  a mulher da minha vida.
- T louco?
- Louco por voc. Nunca senti nada assim antes... Fica comigo pra sempre? Casa comigo? Diz que sim! Diz que sim! - Ajoelhou-se a
os berros, aos prantos.
Cara doido, doido.
- Eu vou embora.
- No, no me abandone, no me desespere, porque eu no posso ficar sem voc...
- Isso  Daniela Mercury... Este bloco  da Ivete...
- Eu sei, mas esses versos magnficos so perfeitos pra essa ocasio. No termina comigo, por favor.
- Terminar o qu? A gente nem comeou!
- Eu nunca fui to pisado em toda a minha vida! Que dor, que
dor!!!
- No fica assim...
- Como no, gracinha? Eu sei que no significo nada pra voc! J entendi! Nossa histria e nada  a mesma coisa!
- Nossa histria? Que histria?
- Oxssi, meu pai, t vendo isso? Oxum, minha mainha, t acompanhando meu martrio? Me d fora, Iemanj, me ajude, Ians! - sup
licou, em baians arretado, mos
pra cima,
lgrimas jorrando dos olhos, mostrando que conhecia todos os orixs. E terminou sua prece com um inacreditvel: - Vem comigo, Ol
odum!
- Olodum?! O bloco dos meninos com tambor? Fala srio, graona! - reagi, chocada.
Mas ele nem ouviu, a msica estava alta.
"Quer andar de carro velho amor, que venha..."
Droga! Uma das poucas msicas que sei cantar, mas no vou
poder porque estou no meio de uma cena surreal.
- Voc  carioca, n, gracinha?
- Sou.
- Eu sou baiano. Soteropolitano. E sei bem como  carioca. Carioca  fogo. So todas fceis, mas quando a gente quer algo mais s
rio largam a gente e deixam a gente
na pior, com o corao na mo. Sem mais nem menos, sem nem uma explicao, sem uma palavra de carinho, abandonam a gente na rua
da amargura.
Rua da amargura? Ui!
- Olha,eu sou carioca e no sou nada fcil, te beijei porque isso aqui  carnaval.
- Beijo? Voc chama isso de beijo, isso  amor, gracinha! Amor!!! Amor sincero, amor de verdade.
- Isso foi um beijo de carnaval!!!
- No faz isso comigo, gracinhaaa! J pisou demais!
- Desculpa! - desesperei-me.
- Desculpo, desculpo.  s me dar seu telefone. Vamos conversar, vamos discutir a relao, vamos falar da gente! Vem viver o ver
o, vem curtir Salvador, eu sou camaleo,
hoje sou seu amor! - gritou ele, parafraseando Chiclete com Banana. - No se perca de mim, no se esquea de mim, no desaparea
! - tentou me conquistar mais uma
vez, agora com outra msica tpica do carn baiano, enquanto eu sumia no meio da multido, assustada, para escapar das garras do
 nutricionista bocudo.
Nutricionista que mais tarde, quando contei a histria para as
minhas amigas, virou "DBB (Doido Bocudo Baiano)".
- Volta aqui, carioca! Volta aqui! A praa Castro Alves  do povo, mas meu corao  todinho seu! - ele berrou com as vsceras.
No adiantou, claro. Eu j estava longe, bem longe dele, botando a mo no joelho e dando uma abaixadinha no extremo oposto do bl
oco.
"Isso  com o seu pai"
"Isso  com sua me"

Quando estou namorando a pior coisa  conseguir sair  noite com o dito namorado. De dia,tudo bem, sempre pude ir para qualquer
lugar, mas a noite... Meus pais devem
ter feito o curso "Como infernizar a filha em poucos minutos", quando eu comecei a beijar na boca, com uns 12 anos.
Sair de casa nunca foi problema. Os dois se preocupavam, mas nada de mais. Depois de umas perguntas, liberavam e eu ia pra rua l
pida e fagueira. Mas pensa que era
assim quando a sada em questo era com um namorado? Nananina! Mesmo depois que se separaram, meus pais mantiveram uma espcie d
e ritual que se repetiu por muito
tempo na minha vida. Mesmo quando eu j tinha 18 anos. Dezoito anos!!! Era o chatrrimo ritual do "deixamos-ou-no-deixamos?".
- Me, tenho uma festa pra ir hoje com o Digo, vou voltar tarde.
Beleza? - disse um dia, do alto dos meus 18 anos, idade que jurei que, quando completasse, decidiria minha vida e seria dona do
meu nariz para sempre.
Tolinha.
- Com o tal do Digo?
- , me, com o tal do Digo - respondia, desanimada, j antevendo o que estava por vir.
- Liga para o seu pai e pergunta pra ele, festa com namorado 
com o seu pai.
Quando eu perguntava a opinio paterna sobre a possibilidade de ir .festa, a resposta era invariavelmente:
- Isso  com a sua me, fala com ela.
O dilogo que se seguia era o mesmo, sempre:
- Eu j falei com a mame e ela disse para eu falar com voc.
- Mas isso de festa com namorado  com ela.
E l ia eu falar de novo com a minha me.
- O papai disse que isso  com voc.
Minutos de silncio e reflexo diante da afirmativa que ela ouvia
desde que eu tinha uns 12 anos, A seguir, o que escutei durante anos da minha vida foi:
- Quem vai a essa festa alm desse Digo? - Era sempre isso que perguntava, mesmo sabendo que no conheceria metade dos nomes que
 eu citaria. Eu, claro, evitava dizer
os apelidos mais esquisitos, ela podia achar que eu estava andando com uma quadrilha: Fumaa, Descalo, Tlouco, Sapo, Espirro..
. Todos eram gente boa, mas a minha
me no ia achar isso no...
Depois de me ouvir com cara de sria, coando o queixo, vinha a
deciso final:
- T bom, Maria de Lourdes. Mas juzo, hein?
Eu disse deciso final? Enlouqueci.
Quando contava ao meu pai que ela tinha deixado, comeava outra novela:
- Sua me deixou? Como assim? Preciso conversar com ela.
E no era por telefone, no! Ele ia l para casa e os dois se trancavam por horas para discutir se eu poderia ou no sair com o
meu namorado. Como  dura a vida
de uma menina de 18 anos!
Saam do quarto e, em vez de darem o veredicto, faziam mais perguntas utilssimas:
- Muito bem, muito bem... Voc vai com o Digo. Ns conhecemos bem esse Digo, ngela?
- Mais ou menos, ele estuda com Maria de Lourdes desde a stima srie e agora t de namorico com ela.
- No  namorico,  namoro - corrigi.
- Por que eu no fui apresentado a ele?
- Porque a gente t no comeo.
- Ento no  namoro.  namorico, mesmo. Eu no aprovei ainda.
- At parece que voc precisa aprovar meus namorados, pai!
- Voc chama o garoto de amor?
- Chamo, pai.
- Ento  namoro, ngela, no tem jeito. Qual  o carro dele?
- Um Gol.
- Que cor?
- Preto.
- Que ano?
- Sei l, pai!
- Como "sei l"? Meu Deus do cu, voc est ou no est namorando esse garoto, Maria de Lourdes? No sabe nada dele! - exasperav
a-se minha me.
Eu ignorava. E o silncio era a deixa para meu pai perguntar:
- Ele tem carteira de motorista?
- Claro.
- Calibra os pneus com freqncia? Pneu  muito importante.
- Acho que sim.
- Ele bebe?
- No quando dirige, me.
- Ento quando no dirige bebe.
- Bebe, pai.
- Muito ou pouco?
- Pouco.
- Cerveja, usque ou vinho?
- S cerveja.
- Vai ficar barrigudo j, j. Cerveja incha que  um horror -
comentava mame. - Voc to bonitinha com namorado barrigudo. Que desgosto.
- Dirige rpido ou devagar?
- No.
- No o qu? Acorda. Maria de Lourdes! Rpido ou devagar? -
aumentava papai o tom da voz.
- Devagar.
- Os pais,dele sabem que voc vai com ele?
- Sei l me, devem saber.
Eles se entreolhavam e vinha a parte que me matava por dentro:
- Me d o telefone desse Digo, Maria de Lourdes. Quero falar com a me dele.
E ento minha me telefonava para a me do namorado em questo e ficava sculos falando no sei o qu.
Que mico!
Uma hora depois...
- Conversei com ela, Armando.  menino direito, responsvel,
cabea no lugar. Acho que tudo bem.
- Tudo bem? - dizia, empolgada. - Posso ir?
- No. Ainda quero saber uma coisa. Vai mais algum no carro
com vocs?
- A Alice, a Duca e o Fernando, pai.
- Isso no  um carro,  uma lotao, no , Maria de Lourdes? -
irritava-se minha me.
- Melhor assim, ngela. No vo fazer nada no carro com tanta
gente em volta. Se  que voc me entende...
- Isso . Bem pensado, Armando.
- J rolou sexo, filha?
- Pai!!!
- Claro que no, Armando! No, n, filha?
- Me!!!
- Bom, se rolar no vai fazer burrada, usa camisinha! Tenho uma
aqui, toma...
- Pai!
- Deixa de ser burra, menina, pega! Finge que eu nem t vendo!
- Pai! Pra com isso! - berrava eu, roxa de vergonha.
- A que horas voc pretende voltar?
- Tarde.
- Tarde que horas?
- No sei, me! Tarde, tarde.
- Tarde o qu? Uma, duas horas da manh?
- Claro que no, pai! Uma hora a gente deve estar chegando  festa.
- Sem cogitao - dizia minha me.
- Por que to tarde? - inquiria meu pai.
- Porque tudo  tarde hoje em dia.
- Que tipo de festa  essa? - questionava minha me.
-  a festa de um amigo do Digo.
- Que amigo? - insistia meu pai.
- Um amigo de infncia dele.
- Onde?
- Na Barra, pai.
- Na Barra? Do outro lado do mundo, meu Deus! - exclamava
minha me. - Voc no vai rachar a gasolina com ele, no, n?
- No, me. Os pais dele pagam a gasolina...
- Melhor assim.
- E ento. Posso ir?
- Pergunta pra sua me.
- Pra mim, no, pergunta para o seu pai!
E sempre, num momento dessa interminvel discusso, tocava o
telefone. Dessa vez, claro, era o Digo.
- Oi, Malu, t pronta? T passando a daqui a uma meia horinha, t?
- No passa, no.
- Por que no?
- Porque ainda no sei se vou. Meus pais no decidiram se vo me deixar ir.
- Fala srio, amor!
- T falando. Eles esto h trs horas e meia pensando.
- Quer que eu fale com eles?
- T doido?
- Eu no vou  festa sem voc...
- , lindo...
- Eu te amo.
- Eu tambm...
- "Eu tambm" o qu? - quis saber a enxerida da minha me, liga da na conversa.
- Ele deve ter dito que ama a Malu, ngela.
- Ou que estava contando com ela para uma noite pervertida num
motel, at as cinco da manh. Nossa filhinha num motel, num daqueles quartos cheios de bactrias e cuspe, ai, que nojo! No vai
entrar em piscina, hein, Maria de
Lourdes!
- E usa a camisinha, finge que voc que comprou, no precisa dizer que eu te dei!
Caraca! Estava difcil conversar.
- Digo, eu tenho que desligar. Eles esto aqui do lado viajando na nossa conversa.
- Eles esto mais propensos a deixar ou a no deixar?
- No tenho a menor idia.
- Jura?
- Juro.
- O que ser que ela jurou? - ficou curioso meu pai. - Espero que no tenha jurado que vai fugir com ele. Vocs no tm dinheiro
. Lembre-se disso. Ningum vive de
amor sem dinheiro, no, minha filha! Amor embaixo da ponte no existe!
- Armando! E se ela tiver jurado que vai fazer tudo o que ele quiser da prxima vez que se encontrarem? E se ele quiser fazer "a
quilo" sem proteo? J pensou, Maria
de Lourdes aparecendo grvida aqui em casa? No estou preparada pra ser av, no!
- Malu, seja qual for a deciso deles, eu apio. So seus pais, eles querem o melhor pra voc. A gente tem que ouvir os nossos p
ais.
- Eles deviam confiar mais em mim.
- Ih, no t gostando desse Digo - murmurou minha me.
- Nem eu - concordou meu pai. - Deve estar metendo minhoca na cabea dela.
No acreditei no comentrio surtado.
- No se esquece que te amo, t?
- , m, eu tambm.
- Eu tambm amo minha filha! Amo muito a minha filha! MUITO! Diz isso pra esse Digo, Maria de Lourdes!
- Ele ouviu, me. Eu no preciso repetir, voc t berrando.
- Daqui a pouco eu te ligo, Digo.
- Voc que vai ligar? Fala srio, Maria de Lourdes! Vai gastar o
meu dinheiro com esse garoto? Telefone custa dinheiro, sabia?
Eu estava quase perdendo as esperanas de sair com o meu Digo. Exausta de tanto interrogatrio, precisava dar um ultimato neles:
- E a, gente? Eu tenho que me arrumar. Posso ou no posso ir?
Minha me pensou, pensou, pensou...
- Ele j disse que te ama?
- Vrias vezes. S nesse telefonema disse duas vezes.
- S? - chocou-se minha me.
- Voc merece mais, filha.
- Arr.
Silncio. Mais silncio. Silncio, silncio, silncio.
- E a?
- E a o qu?
- Como assim "e a o qu", pai? Posso ou no posso ir?
Os dois se entreolharam. Meu pai coou a barba malfeita. Minha
me estalou os dedos e fez uma sugesto.
- Voc no prefere jogar baralho? A gente chama seus irmos e
faz uma jogatina das boas.
- Nossa, suuuuuper tentadora essa proposta, mas eu continuo preferindo ir  festa - debochei.
Mais silncio. At que minha me disse de supeto:
- Pode ir.
- Pode? - indignou-se meu pai.
- Deixa a menina ir, Armando! No vai acontecer nada de ruim
com ela. Vou rezar pra Santa Teresinha pedindo proteo...
- T maluca? Qual o time dele?
- Fluminense.
-  uma pessoa bacana, ento!  - exclamou meu pai e fez uma
longa pausa. - Faz o tipo briguento?
- No.
- Isso  bom...
Novo silncio.
- Quer caf, Armando?
- tima idia, ngela. Se tem uma coisa que gosto em voc  seu caf.
-  uma delcia, mesmo. Acar ou adoante?
- E a, gente? D pra decidir?
- No sei se voc deve ir a essa festa... Muito longe... - insistiu meu pai.
Chato!
- Armando, isso  crueldade, o menino est vindo buscar a Maria
de Lourdes, decide logo!
- Por que eu?
- Porque isso  com voc!
- Comigo, no! Com voc!
Meu pai quedava-se mudo. Minha me quedava-se muda.
Mas era ela quem sempre tomava uma atitude.
- Vai se arrumar, Maria de Lourdes.
- Oba!
- Ah,? Bom, se acontecer alguma coisa com a nossa filha a culpa vai ser sua, voc sabe.
- Armando!
-  isso, sim!A responsabilidade  toda sua...
- Mas...
Nesse dia narrado fui  festa com o Digo. Na maioria das vezes, eu saa e eles continuavam brigando em torno da deciso por hora
s a fio.
Algumas vezes eu chegava em casa e os dois estavam no sof da sala, xcara de caf na mesa, esperando por mim e balbuciando pala
vras, de olhos fechados, quase dormindo:
- No devamos ter deixado...
- No, mas isso  com voc.
- Comigo, no. Com voc.

Terminar  difcil.

Terminar sempre foi uma das coisas mais difceis pra mim.
Sou do tipo que fica inventando uma desculpa atrs da outra para no baixar a auto-estima do chutado da vez. "O problema no  c
om voc,  comigo", "Voc  timo,
eu  que sou difcil", "T tudo perfeito, eu  que no estou num momento muito legal",
"Voc  especial. Merece uma pessoa muito melhor que eu" e coisas ridculas do tipo.
No d pra ser sincera nessas horas. Jamais conseguiria dizer para algum:
"Eu no estou mais a fim de voc", "Voc beija mal", "Voc  chato pra caramba", "No costumo gostar de quem no gosta de banho"
, "Voc  cafona, mimado, repetitivo
e chulezento" ou "Conheci uma pessoa muito mais interessante que voc".
Com o Joo Alfredo foi assim: amanheci gostando dele, fui dormir meio cansadinha do nosso namoro, acordei no dia seguinte decidi
da a terminar tudo.
- Jura que voc vai terminar agora? Perto do dia dos namorados? - alertou Alice.
- ... Muito cruel, n? Ele vai ficar mal... - admiti.
- Nada disso, sua anta! Vai deixar de ganhar presente. E ele 
timo de presente!
- Ai, Alice! T nem a pra presente! Quero  que ele no fique
magoado comigo!
- Ele vai ficar. J viu algum que leva p na bunda entender o p
na bunda? Malu, num trmino, sempre um fica bem e o outro pssimo.
Com esse super incentivo da minha melhor amiga, decidi terminar
depois do dia dos namorados.
Uma semana passou e nada de criar coragem pra dizer: "Est tudo
acabado entre ns."
Trs semanas depois eu ainda estava com o Joo Alfredo, com zero coragem de dizer que no queria mais nada com ele.
Quatro semanas e eu, covarde at a raiz dos cabelos, no tinha botado o ponto final na relao e ficava me enganando:
- Eu estou dando mais uma chance a ele. Ele  to fofo, gosta
tanto de mim...
- Mas voc no gosta dele. Eu, hein, Malu! Que perda de tempo!
Tantos gatinhos disponveis e voc grudada em um de quem s gosta como amigo.
Era verdade. A paixo pelo Joo Alfredo passara muito mais
rpido do que eu gostaria. Comecei apaixonadssima, os olhos brilhando, o corao batendo forte... Ele era bacana, gente boa, pa
ciente, carinhoso, tinha o maxilar
to bem definido... Mas, quando vi, a relao estava mais fria que um iceberg. Do nada. Sem motivo nenhum, passei a olhar difere
nte para ele.
- Voc enjoou dele, Malu, assume! - Alice foi sincera.
- Ai, Alice! Que grossa!!! - estrilei.
Mas era a mais pura verdade. Eu tinha enjoado do Joo Alfredo.
Como  que a gente consegue enjoar de uma pessoa?
-  porque ele no  O cara! Se fosse, voc estaria ainda mais apaixonada por ele - opinou Alice. - Voc tem que dar logo um fim
 nisso. Pra mim, voc no est se
enganando. T  enganando o pobre do garoto, enrolando o coitado.
Era verdade. Eu precisava tomar uma atitude.
- Joo Alfredo, no fica triste. Mas eu preciso ficar sozinha um
tempo. T numa fase muito chata, um momento muito meu, e nem estou na TPM. T decidida a terminar com voc, vai ser melhor pra n
s dois, voc merece uma pessoa muito
melhor do que eu - ensaiei mil vezes com o espelho antes de ligar pra ele.
Liguei, com o texto na ponta da lngua. Ele estava no hospital com o pai que tinha tido uma dor de cabea fortssima e estava in
ternado para uma batelada de exames.
L fui eu para o hospital encontrar com ele, que estava arrasado, tadinho.
No terminei, claro.
Em duas semanas, o pai dele estava em casa firme e forte. A dor
de cabea era o princpio de uma virose, mas depois ficou tudo bem.
- Ai, Malu! Que crueldade voc querer terminar agora. Agenta mais um pouquinho! O menino deve estar assustado ainda com o negc
io do pai, precisando de carinho...
- opinou Alice.
Fiquei mais um ms com ele. Dois meses sem paixo - e sem
coragem.
- Malu, quero levar voc pra um lugar especial hoje - disse Joo
Alfredo.
Glup! Lugar especial? Caraca! Ser que ele vai me pedir em casamento?, tremi. Era s o que faltava! Terminar namoro j era difc
il, imagina noivado!
Fomos para um lugar na Barra cheio de barzinhos lotados de
gente feia e barulhenta. Ele era pssimo de lugares especiais.
Sentamos em um que, tragdia das tragdias, era de msica ao vivo. Realmente, aquele namoro precisava acabar, ele no tinha nada
 a ver comigo.
Nunca entendi bar de msica ao vivo. O cara fica l cantando
musiquinhas chatinhas e todo mundo ignora e fica conversando como se o cara fosse invisvel. Qual o propsito de bar com msica
ao vivo? Ouvir a msica no , porque
no d com tanto falatrio em volta. Conversar tambm no,  impossvel com uma msica to alta. J sa de um lugar desses compl
etamente sem voz de tanto berrar
pra me fazer entender pelas pessoas. Resumindo: ODEIO bar com msica ao vivo. Show  show, bar  bar.
Mas o Joo Alfredo gostava.
- Adoro esse cara - revelou, referindo-se ao pssimo cantor que
cantava pssimas msicas.
- Ah, t - desanimei-me por completo.
- Eu quero conversar com voc, Malu - comeou, num tom acima do normal, pra que eu conseguisse escut-lo.
Oba,  a minha deixa!, vibrei.
- Eu tambm, Joo Alfredo!
- Qu?
Falei bem alto:
- EU TAMBM QUERO CONVERSAAAR!!!
A hora era aquela.
- Eu gosto muito de voc, Joo...
- Qu?
- EU GOSTO MUITO DE VOC!
Ele no disse nada, apenas sorriu. Fofinhoooo!
- Voc  um garoto maravilhoso...
- Meu cabelo  oleoso?
- NO! VOC  UM MENINO MA-RA-VI-LHO-SO!
- Ah... que  isso...
-  verdade... Eu me sinto privilegiada por voc gostar de mim... - Quer comprar um guaxinim? - Ele franziu a testa, tentando me
 ouvir melhor.
Nem consegui corrigi-lo. Chegou o garom com nosso aipim frito e refrigerantes.
- Ento, como eu estava dizendo... - tentei continuar.
- Pra! Adoro essa msica - emocionou-se fortemente quando o cara comeou a cantar uma cano com batida de ax que rimava "Ana"
 com "banana" e era o cmulo da ruindade.
Pior  que no s ele sabia a letra. A galera do bar acompanhava
tudo com palminhas empolgadas e vozes desafinadas.
Fiquei chocada. Que garoto cafona! Preciso terminar tudo, mesmo
que eu fique com peninha dele. E  agora!. decidi.
- Voc  tudo de bom - comecei.
- Voc tambm - devolveu.
- Gosto de voc de verdade, mas...
- Mas a gente no nasceu um pro outro.
- Qu?!
- A GENTE NO NASCEU UM PRO OUTRO! - repetiu bem alto.
- Srio? - assustei-me.
- Srio. Acho que no tem nada a ver a gente como casal.
- Sua gente te faz mal? Que gente  essa?
- A GENTE NO  UM CASAL LEGAAAAL - berrou ele.
- A gente  sim! - disse, sem pensar.
- No , no! A gente se gosta como amigo...
- Mas a gente  feliz junto... - reagi, de novo sem pensar.
- Eu sei, o problema no  com voc!  comigo!
No!!! Conheo essas frases! Essas frases so minhas!!!
- Voc  uma menina especial, mas...
Droga! Ele veio com essa de especial... Eu ia levar um p na bunda!
- Voc tambm  especial! - gritei.
- Malu, quando as coisas no vo bem a gente tem que pular fora.
- Voc quer ir embora? - fingi que no o tinha entendido.
Ah! Quem precisava botar o ponto final era eu! Eu estava esperando meses por aquela hora! Eu!!!
- No! Quero que voc v embora! DA MINHA VIDA! - exaltou-se. Fiquei chokita. Chokitssima. Isso no  uma frase nada legal de o
uvir. Fiquei alguns segundos muda,com
o queixo cado e os olhos arregalados, assimilando a grosseria...
- Como  que ?! - Foi tudo o que consegui verbalizar.
- T DIZENDO QUE QUANDO O NAMORO EST UMA DIARRIA A GENTE TEM QUE TERMINAR! - gritou com todas as suas cordas vocais. Bem no in
tervalo entre uma msica e outra.
Pronto. O bar inteiro sabia que meu namoro estava uma diarria. E que palavra horrvel! Que palavra mais descabida! Diarria era
ele! Eu que devia estar dizendo tudo aquilo!
S que com muito mais classe, com certeza. A diarria ia passar
longe da nossa conversa.
Depois do constrangimento de ver toda a Barra da Tijuca olhando
pra mim ao mesmo tempo, resolvi me manifestar:
- Olha aqui, Joo Alfredo, fique sabendo que eu estava querendo
terminar com voc h um tempo!
- T bem, Malu... - reagiu, sem acreditar em mim.
-  srio, h sculos eu no gosto de voc!
- Arr - debochou.
Ai, que raiva! Por que eu no terminei antes?
- Por que voc no terminou antes?
- Pra no magoar voc... Achei que voc estava super apaixonado por mim.
- Apaixonado?! Nunca fui apaixonado por voc, Malu. Voc at que  gata e tal, mas nunca bateu nada mais forte, sacou?
- Que mentira...
- Malu, desculpa, mas eu cansei de voc do dia pra noite.
Grosso!
- Eu tambm.
- Ento beleza.
Ai, que odiooo!
- Beleza nada! Aturei voc por tanto tempo s pra no te magoar e agora descubro que voc  um cavalo em forma de gente.
- E voc  uma fresca.
- E voc, um idiota.
- A gente se odeia,  isso?
-  isso! Voc  de ltima!
- No sou boa coisa, mesmo. Todas as meninas dizem isso.
Chocada, com a raiva estampada no meu semblante, fiquei olhando para um lado e ele para o outro. A msica de fundo? Aquela que o
 Roberto canta: "Voc foi o maior
dos meus casos, de todos os abraos o que eu nunca esqueci."
Quer msica mais nada a ver que essa?
- Vamos pedir a conta? - finalmente ele quebrou o gelo.
- Por favor.
- Hoje eu pago tudo. Nada de dividir.
- Nossa, muito obrigada - ironizei.
- No fica assim, Malu... Foi legal enquanto durou.
- Eu sei.
- A gente s no combina um com o outro.
- Eu sei disso tambm. H mais tempo que voc, alis.
- Quero que voc seja feliz e encontre um cara muito mais legal
do que eu.
- No se preocupe, isso vai ser faclimo. Vamos?
- Vamos. Mas... assim, sem nem um beijinho de trmino?
Beijinho de trmino?
- T maluco, Joo Alfredo? Fala srio, Joo Alfredoooo!

19 ANOS.

Terminar  difcil 2

Como contei na histria anterior, terminar nunca foi meu forte.
Quando queria encerrar uma relao, era sempre um martrio. s vezes eu esfriava o namoro aos poucos, at o cara se tocar e me d
ar um p na bunda. Mas com o Vlad,
um fofito que conheci quando tinha 12 anos (e ele 19), era diferente, eu no podia ficar enrolando o menino. Meus pais eram amig
os de longa data dos pais dele, ele
me conheceu pirralhsima e, claro, no me dava a mnima. Quando eu era pequena, achava o cara tudo na vida: musculoso, boca gros
sa, furinho no queixo, sorriso sempre
no rosto, olhos amendoados... Um petculo!
Quando ele reparou em mim como mulher, nem acreditei.
Achei que para ele eu seria eternamente uma criana.
Nossa histria comeou linda. Primeiro ele me chamou para jantar num restaurante japons, que eu amo. Jantamos, tomamos saqu, r
imos muito, relembramos nossas histrias...
Na hora de me deixar em Coisa, ele no me beijou. "Que fofooo! Faz o tipo romntico!", vibrei por dentro.
No segundo encontro, fomos a um restaurante super aconchegante e romntico, bebemos vinho, comemos massa, olhamos nos olhos, rim
os, falamos e tal e coisa. Na despedida,
nada de beijo. De novo. No terceiro dia que nos vimos, o ritual se seguiu: restaurante com tudo do bom e do melhor, mas nada de
beijo.
Ele sequer demonstrou para mim que queria me beijar, no aumentou o ar-condicionado do carro para eu morrer de frio e ele dar a
desculpa de que queria me esquentar,
no inclinou o corpo pra frente, no puxou nenhum assunto mais apimentado. Nada.
Sa do carro com mil interrogaes na cabea: "O que  que eu
estou fazendo de errado? Ser que tenho que aumentar o decote? Ser que vou ter que tomar a iniciativa? Ser que estou com mau h
lito? Ser que ele  gay?"
Poxa, logo agora, em pleno sculo XXI, quando homens e mulheres no se sentem culpados ou julgados por poder beijar tudo e todos
, ele estava fazendo jogo duro? Justo
comigo, que gosto tanto de beijar, sou to beijoqueira! Que mundo injusto e cruel!
Na quarta vez, eu no agentei e puxei o assunto no restaurante:
- Vlad, eu acho melhor a gente conversar sobre a gente... - disse
essa frase horrvel e cafona, mas precisava entender o que passava
pela cabea do cara! - Voc  superfofo, romntico, rola um clima bacana, mas nada acontece. O que voc quer comigo? Ser meu ami
go  que no , amigo no gasta tanto
em restaurantes caros com outra amiga se no tiver segundas intenes... - fiz graa.
- Caramba! No esperava por isso.
-ou... Peguei pesado demais!, eu me recriminei.
- Mas  que...
- No precisa explicar nada, voc est certssima.  que... Bom...
Eu estou muito balanado por voc, Malu. Cada dia mais. E pra falar a verdade, t achando tudo muito estranho, muito novo... At
 outro dia voc era uma menininha
de olhos grandes e brilhantes e agora voc  um mulhero que me deixa tonto, confuso, abobado...
Caraca! O Vlad me acha um mulhero?! T boba!, pensei. E o "muito balanado"? Que frase de novela! Nunca achei que algum disses
se isso na vida real. Nunca achei
que ouviria isso. Mas foi to lindo!
- , Vlad... Confuso com o qu?
- Com meus sentimentos... Quero ter certeza deles, e dos seus,
para ningum sair machucado. Afinal de contas, antes de tudo eu sou seu amigo, nossos pais so amigos, e quero continuar com ess
a amizade se a gente no der certo.
Dling-Dlong!, tocou a campainha da paixo na minha cabea. Que menino maduro, centrado, com frases perfeitas e coerentes... Nunc
a tinha sado com algum que se expressasse
to bem com palavras.
- Eu gosto muito, muito de voc, Malu. Muito mais do que achei
que pudesse gostar.
Meu Deus!!! Eu estava prestes a berrar: 'T bom, j entendi! Agora cala a boca e me beija!" Mas no berrei. Nem precisei.
Meus olhinhos encantados devem ter dado a entender que tudo o que eu queria era um beijo dele.
Beijamos. E foi um beijo to gostoso!
Mas eu sou to chata... Gostava de ach-lo impossvel, inalcanvel, de t-lo como minha paixo platnica... Quando Vlad se torn
ou realidade, o calor que ele me
dava virou uma banheira de gua fria.
- , garota chata! - exasperou-se minha me. - Eu no sei o que voc quer da vida, sabe. Maria de Lourdes? Quando est solteira,
 reclama que est sozinha. Quando
arruma um namorado perfeito, reclama do namorado. Ele  o par ideal, Maria de Lourdes. Todo mundo queria estar com ele. Vladimir
 Jos sabe pregar boto, minha filha!
Sabe l o que  isso?
- Vlad, me, Vlad, por favor.  por isso que o menino tem apelido.
- Apelido medonho. Vladimir Jos  to imponen...
- Mais um Vladimir Jos e eu termino AGORA com ele!
Minha me calou-se. Meu pai veio em casa intervir.
- Por que deu tanto mole pro cara se ia dispens-lo um ms
depois? Mulher  tudo igual, viu? - irritou-se meu pai.
- Voc dizia quando era pequena que queria casar com o cara, agora que ele est derretido por voc, voc vira uma bruxa e quer t
erminar sem motivo aparente, s porque
ele agora gosta de voc? Francamente, Malu!
- Caraca, pai!
- Seu pai est certo. A gente tem que gostar de quem gosta da
gente, depois vai ficar uma velha encalhada e rabugenta.
- Menos, ngela. Menos. A menina tem s 19 anos, falta muito
para ser uma velha encalhada.
No teve jeito. Nada reacendeu a chama da paixo dos primeiros dias. Eu achei que fosse durar mais, sempre acho que vai ser pra
sempre, mas no foi. E eu no ia
ficar com ele s porque meus pais queriam.
Chamei-o para sair, criei coragem e disse num s flego:
- Vlad, eu te adoro, mas no posso mais continuar com voc.
- Por qu?
- Acho que sou muito criana pra voc, voc precisa de uma
mulher mais madura, que no pense tanto em shows e festas e no faa os testes das revistas femininas.
- Mas...
- Voc est noutra fase da vida... Trabalhando, no mora mais
com os pais, paga suas prprias contas. Eu sou um beb perto de voc... Quem sabe a gente no d certo mais pra frente, hein?
- T bom. Voc t certa - respondeu, com a cabea baixa e um fiapo de voz. - Concordo com tudo o que voc disse. Estamos em fase
s diferentes... - completou, meio
choroso.
- , Vlad... No fica assim...
- , Malu... Desculpa...  que eu gosto tanto de voc. tanto, tanto... - declarou-se enquanto beijava minha mo. - Vou demorar a
 me recuperar desse baque, mas prometo
que vou continuar seu amigo. voc vai ver... Da sua amizade eu no abro mo.
h! Essa ltima frase partiu meu corao.
Antes de ir embora, ele me abraou apertado e eu comemorei
internamente o melhor trmino de toda a minha vida. Como so civilizados os homens acima dos 21!
Civilizado, mas tristinho. Vlad saiu bem borocox l de casa e me bateu a maior dor na conscincia. Tadinho. podia ter ficado co
m ele mais um pouco. Ele era to
fofo comigo, to romntico... Dormi pensando em ligar pra ele no dia seguinte e. quem sabe, reatar aquele namoro perfeito. Lindo
. Especial. Minha me devia estar
certa. Eu sou uma chata mesmo, nunca estou satisfeita com nada.
No dia seguinte, sa com as minhas amigas para debater o trmino. Fomos ao cinema, compramos o ingresso e fomos tagarelar na lan
chonete enquanto espervamos o comeo
da sesso.
- Vocs acham que eu ligo? Ele ficou to arrasado...
- Chorou?
- Chorou! Eu vi gotinhas carem dos olhos dele.
- ! Que lindooo! - berrou Alice. - Nunca nenhum garoto chorou por mim.  meu sonho!
- Eu amo menino que chora! - acrescentou Duca.
- Eu tambm. Isso  sinal de que ele te ama de verdade - disse
Nanda.
- Eu sei, eu sei. Ele me ama, me ama muito. Tadinho, e eu fui uma vaca terminando com ele sem nenhum motivo... Deixei o Vlad to
 triste, to cabisbaixo... Vai demorar
para ele se recuperar.
-  to bom ter algum que goste da gente, Malu.
- E o Vlad te ama. Acho que voc era a mulher da vida dele.
- Ser? - empolguei-me com a idia de ser a mulher da vida de
algum. Que coisa mais adulta!
- Vou sair daqui e ligar pra ele. Vou dar mais uma chance pro menino, n?
- Malu... talvez voc no precise ligar...
- Voc acha melhor falar essas coisas ao vivo, olhando no olho, n, Alice?
- Hum... No exatamente...  que voc pode falar com ele aqui,
mesmo... Discretamente... d uma olhada para aquele casal se amassando em frente  vitrine da loja de jias. No  o Vlad?
Era. Era o Vlad, o insensvel, desumano, idiota e nada apaixonado
Vlad. Aos beijos com uma loura de cabelo de palha com uma saia que mais parecia um cinto de to curta.
- Piranha. Piranhuda! - exclamei.
- Ele t entrando com ela na loja de jias! - alertou-me Nanda.
- Vai dar pra ela a aliana que queria ter dado pra voc - irritou-me Duca.
Num mpeto imbecil, levantei-me e fui l falar com ele.
- A, Vlad.
- Malu! Que surpresa!
- Surpresa estou eu! Voc no disse que ia demorar para se recuperar do nosso trmino, que gostava muito de mim e blablabl? Cad
?
- Cad quem?
- Aquele cara que saiu da minha casa ontem triste e com lgrimas nos olhos?
- U, no foi voc que disse que estvamos em fases diferentes?
Concordei com voc e segui seu conselho: procurei uma mulher mais madura. Essa aqui  a Cibele. Tem 29 anos.
- Vinte e oito, amor - corrigiu a vaca loura.
- Pois ,  mais velha que eu, no mora mais com os pais, paga as prprias contas...
Deixei o estpido falando sozinho. Homens... argh!

 cada um que me aparece... 5

Estou na praa de alimentao devorando sem culpa um sanduche engordativo enquanto espero minha me e Malena voltarem do banhei
ro. Sujeito bonitinho se aproxima.
- Sozinha?
- T esperando minha me e minha irm que foram ao banheiro.
- Opa, vou conhecer a sogrinha, ento? - engraou-se o sujeito
bonitinho.
- Rrr-r-r... - ri um riso forado. Podia no ter rido, mas ri, era um sujeito bonitinho e sujeitos bonitinhos, mesmo n
o sendo meu tipo preferido, contam
pontos no currculo.
- Que  que tu faz? - perguntou, me irritando profundamente.
Nada me irrita mais do que "tu" mal empregado.
- Jornalismo. E voc?
- Biologia marinha. Adoro o fundo do mar.
Comecei a olhar com outros olhos para ele. Alm de bonitinho o
sujeito estudava o mar e suas criaturas, era uma pessoa da natureza, o que  praticamente sinnimo de pessoa do bem...
- Que mximo!
- Mximo  voc. Tu  linda demais, sabia?
Ui, o "tu" de novo me irritando. Deixei passar mais uma vez.
- Obrigada. .
- Eu tambm no fao feio, no, n? O povo da faculdade me
chama de Clark Kent.
Fiquei chocada com o comentrio narcisista e emudeci.
- A identidade secreta do Super-Homem! - fez questo de explicar.
- Eu sei...
- P, a, t apaixonado. Tu  linda demais...
-ou. Mesmo elogio, mesmo tu... Comecei a desconfiar que sujeito bonitinho era um sujeito sem assunto.
- No d pra se apaixonar to rpido. Voc nem me conhece...
- E preciso conhecer melhor? Tu  linda. Linda, linda, linda.
Definitivamente, sujeito bonitinho era um sujeito completamente sem assunto.
- Gosta de baleia? - quis saber ele.
- Nunca parei pra pensar nisso, mas acho que gosto...
- Acha que gosta? Acha? Fala srio! Baleia  demais! Aquele bicho gordo, de nado manso, mamfe dos mar. Meus amigo tudo so louc
o por baleia.
Pra! Pra tudo! Mamife? Ele disse mamife dos mar em vez de mamfero dos mares! Meu Deus do cu! Sujeito bonitinho era um sujeit
o burrinho! Meus amigo tudo? Que
 que  isso? E o cara estava na faculdade! Como essa pessoa passou pra faculdade? Pra onde caminha a humanidade?
- Ih, olha a, coisa linda. Olha quem t chegano!  a minha sogrinha. E t com a minha cunhadinha - disse, assim que viu mame e
 Malena se aproximarem da mesa. E
falou chegano, mesmo. No  erro de digitao!
- J sei de quem tu puxou tanta beleza...
- Me, esse  o... Nossa, no sei o seu nome.
-  Odilavi.
- Odilavi? - assustou-se Malena.
- Por qu?! - assustou-se mais ainda minha me.
- Eu ia me chamar Osvaldo em homenagem a um tio. Mas esse tio morreu pouco antes de eu nascer. A minha me no quis deixar de f
azer a homenagem, mas ficou com medo
de o nome trazer o fantasma da morte para um recm-nascido. Ento, como o contrrio de morte  vida. Nascimento. Nada melhor par
a saudar uma vida nova que o nome
do homenageado... ao contrrio. Por isso, em vez de Osvaldo, ela me batizou de Odlav. O 'D' e o 'V' so mudos, mas se diz Odilav
i.
- No deveria se chamar Odlavso? - quis saber minha me.
- . Mas ela resolveu tirar o outro 'O' e o 'S' para garantir que
nenhuma energia ruim ia se aproximar de mim. E tambm pra no ficar esquisito - explicou.
Diante das nossas caras boquiabertas, ele acrescentou:
- A galera acha estranho, mas eu acho maneiro, s conheo eu
com esse nome, sogrinha.
- Sogrinha  qualquer uma, menos eu, Od... Odvaldo, Odiemo, Od... Odseil - brigou minha me. - Vira pra c, Maria de Lourdes, s
hopping no  lugar pra ficar de
conversinha com estranhos.
Assim que virei as costas para o sujeito bonitinho de nome esquisitinho, sussurrei:
- Valeu, me! Voc me salvou!
- Imagina se eu ia deixar voc ficar de convers com uma pessoa
com esse nome? Era s o que me faltava. "Maria de Lourdes, voc aceita Odlav como seu legtimo esposo?" Nossa, acho que eu ia de
smaiar no altar.
No acreditei no comentrio. E tambm no resisti:
- Fala srio, me!
Rolamos de rir juntas do episdio, e eu continuei solteira por um
bom tempo depois dele.

Viva a empada!

- Diz pra sua me que ela no precisa se preocupar. O meu pai
busca a gente e te leva em casa depois.
- Srio? Ele no se importa de acordar no meio da noite s para pegar a gente?
- Que nada, ele adora.
O dilogo acima aconteceu com o Gustavo. Namorado com quem
eu estava saindo havia pouco mais de um ms.
A minha me urrou de felicidade quando contei que agora eu tinha um namorado cujo pai adorava, com nfase na palavra adorava, bu
scar os filhos nas baladas. Os filhos
e as namoradas dos filhos.
- Deus abenoe esse doido! Agora vou conseguir fazer o que eu
sempre quis  noite: dormir - disse minha me.
At parece. Ela nunca conseguiu dormir antes que eu chegasse
em casa.
A gente ia para uma rave em Vargem Grande, longe  bea da Tijuca. A minha me levou a gente e reclamou da lonjura, das roupas d
as pessoas, da cara das pessoas,
do som bate-estaca ensurdecedor que dava pra ouvir a alguns quilmetros do local da festa, do preo do convite...
- Veja voc se isso l  hora de chegar em festa. Meia-noite e
meia! Meia-noite e meia! Isso  hora de criana dormir.
- Me, onde  que tem criana aqui?
- Agora  assim, tia, tudo comea tarde.
- Olha l onde voc est se metendo, hein, Maria de Lourdes? Isso a t parecendo um antro de perdio.
- Um o qu?
- Relaxa, tia. Eu tomo conta dela - disse o fofo do Gus.
- Isso  que me preocupa - respondeu ela, irritada. - No beba
nada que te oferecerem, no fume nada, no cheire nada, no coma nenhuma balinha bonitinha... enfim, acho que voc j  grandinh
a o suficiente para saber o que as
drogas podem fazer com uma pessoa.
- Caraca, me! Acho droga cado! J te disse mil vezes! Minha
nica droga  mate, c sabe! No precisa se preocupar, t?
- Ah, t, agora que voc pediu pode deixar que eu no me preocupo - debochou. - Juzo, hein?
Entramos na rave. Msica boa, gente bonita, bebida gelada. Danamos, encontramos vrios amigos, conversamos, beijamos muuuuito,
nos divertimos horrores.
s quatro horas da manh fomos esperar o pai do Gus na porta do
stio onde estava rolando a festa.
- Olha a empada do Manel! Empada quentinha! Empada fresquinha! Empada gostosinha! Empada do Manel, a preferida das bonitinhas e
dos bonitinhos! - berrava a voz impostada
que saa do altofalante de um carro amarelo estampado com empadinhas e com uma empada gigante presa ao cap.
- O povo no perde a chance de faturar um extra, n?? - comentei com Gus. - Brasileiro  um povo interessante.  s ver festa, p
blico, que logo arruma um jeito
de vender alguma coisa.
- Ele no veio vender empada, no. T s avisando pra gente que
chegou.
- Voc conhece o empadeiro?
- O Manel das empadas? Claro!
- Desde quando voc conhece esse cara? Por que voc conhece
esse cara?
- Conheo o Manel desde que nasci. Ele  meu pai.
- Fala srio, Gus! - disse eu, ainda no acreditando que meu sogro tinha (e usava!!!) um carro-empada.
- No te contei que meu pai  o Manel das empadas?
- No! Contou s que ele era comerciante.
- Empadas fresquinhas! Empadas quentinhas! - continuava a berrar a voz que saa do alto-falante daquele carro amarelo-ovo, que a
ndava a dois quilmetros por hora.
Eu estava roxa de vergonha. Uma empada-gigante tinha ido me pegar na porta de uma rave movimentadssima! Na frente de todos os m
eus amigos. Que mico!
- Nunca imaginei que o negcio do seu pai fosse empada. Achei que ele tinha uma loja.
- Nada. Ele  engenheiro e foi demitido sem muita explicao da empresa onde trabalhou por mais de 15 anos. Sem grana, resolveu
comear um negcio novo pra poder
sustentar a mim e aos meus irmos.
- Nossa... Que histria... E que humildade, que fora de vontade!  preciso ter muita coragem pra comear do zero... Ainda mais
fazendo empada pra vender na rua...
- Pois . Muitos amigos dele, orgulhosos, continuam batendo nas portas das empresas em busca de um emprego. O meu pai, no. Ele
sempre foi um cozinheiro de mo cheia
e, junto com a minha me, resolveu preparar empadas e vend-las na porta de escolas, faculdades, cursinhos... Tem dado muito cer
to.
- Caramba... E... Voc no fica envergonhado de andar nesse carro? - perguntei, meio sem graa.
- No comeo eu morria de vergonha. Quase me joguei embaixo de um nibus quando ele foi me pegar na escola com esse carro pela pr
imeira vez. Todo mundo me zoou.
- Tadinho de voc, Gus...
- , mas hoje tenho o maior orgulho do meu pai - logo apressou-se em dizer. - Foram as empadas que fizeram com que ele voltasse
a sorrir e a ganhar dinheiro. Depois
delas meu pai se sentiu mais pai, sabe?
Fiquei emocionada.
Ele continuou:
- E o melhor  que ele no tem chefe. Ele mesmo  seu patro, no tem que puxar o saco de ningum, ele  que decide os horrios
em que vai trabalhar, com quem vai
trabalhar, como vai trabalhar, que sabores vai preparar... Meu pai  outra pessoa desde que comeou o negcio das empadas. Descu
lpa no ter te avisado, Malu. No
achei que voc ia ficar com vergonha...
Fiquei com vergonha.
De mim.
- Relaxa. Foi s o susto. J virei f do seu pai - admiti, sincera.
- Vai uma empada a? - perguntou Manel das empadas, quero
dizer, tio Manel, sorriso no rosto, ao estacionar perto da gente, s quatro da manh.
- Fala, paizinho! - disse Gus, deixando-me totalmente derretida
por seu carinho com o pai.
- Qual, moleque? E a? Danaram muito?
No conseguimos responder. Dois caras meio bbados se aproximaram da janela. Achei que iam falar alguma besteira, zoar da nossa
cara, mas em vez disso:
- Tem de palmito?
- Claro - respondeu, feliz, tio Manel das empadas.
- V duas, por favor?
- S se for agora! - respondeu ele. J saindo do carro para pegar
as empadas na mala.
Depois chegou mais um casal, depois mais um grupo, e mais outro e, quando vi estava, s 4h30 da manh, vendendo empadas em Varge
m Grande para "bonitinhos" e "bonitinhas"
esfomeados. Eu, o Gus e o tio Manel. E ainda comi muitas empadas de comisso.
Ao contrrio do que eu podia pensar, no fiquei com nenhuma
vergonha. Essa coisa de mico  ridcula. s vezes a gente acha mico uma coisa que de mico no tem nada. Tio Manel era um vencedo
r, como tantos brasileiros criativos
que tm por a. E eu fiquei muito orgulhosa de poder ajud-lo junto com o meu gatinho naquela noite. Como diz minha me, vergonh
a  roubar. E a gente, alm de vender
e ganhar dinheiro honestamente, se divertiu  bea. , noite bacana!

O primeiro a gente nunca esquece



Eu estava, havia oito meses com o Gus, totalmente amorzinho, totalmente grudadinhos, passvamos os dias juntos, depois da faculd
ade ou eu ia para a casa dele ou
ele para a minha, uma paixo infinita. E ficvamos juntos a tarde inteira falando bobagem. Namorando, vendo filmes, namorando, c
omendo pipoca, namorando, comendo
empada, namorando... Um dia, ele me pediu uma massagem nas costas. Comecei a massage-lo, ele ficou relaxado, relaxado, bem rela
xado e... o inesperado aconteceu.
- Depois de oito meses de namoro, ele soltou o primeiro pum na minha frente! - contei para Duca, Alice e Nanda, que reuni na min
ha casa no mesmo dia do episdio
flatulento.
- Oba!!! - Alice bateu palminhas, toda alegrinha. - Agora isso virou um namoro srio!
- Voc soltou um logo depois?
- Claro que no, Duca!
- Devia. Nessas horas  legal um pum amigo, um pum solidrio...
- Pra qu? - perguntei.
- Para o pum do outro no ficar tmido, u. - respondeu, sria.
- Ai, eu acho que no quero fazer parte dessa conversa... - reclamou Nanda, devidamente ignorada por ns.
- Foi barulhento ou silencioso? - quis saber a troglodita da Alice.
- Ai, tomara que tenha sido barulhento, o silencioso ningum merece! So os piores! - disse Nanda, nojinho puro.
- Foi barulhento, gente.
- Longo ou rapidinho?
- O primeiro foi rpido...
- Teve mais de um?
- Foram dois, Nanda - revelei um tanto constrangida, ajudando as meninas a devorar um brownie de chocolate. Sim, ns estvamos c
omendo enquanto tnhamos esse dilogo.
- Dois?! Isso que  intimidade! Sinal que ele se sente suuuper  vontade com voc! Viva o peido do casal! - comemorou Alice.
- Eca, Alice! - recriminou Nanda. - Tomara que meu namorado nunca fique to  vontade comigo.
- Por qu, sai chata? Sinal de que o Gus estava de bem com a vida, totalmente apaixonado, relaxado...
- Relaxou tanto que soltou punzo duas vezes - disse Nanda, enjoada.
- Punzo? - reagiu Duca.
- Eu me recuso a dizer aquela outra palavra.
- Peido? Ah, fala srio, Nanda! - riu Alice.
- Vamos mudar de assunto, gente? - tentou Nanda.
- No! - respondemos em uma s voz.
- E a reao dele? Como foi? Como foram os segundos seguintes? - indagou Duca.
- Foi estranho, mas tambm foi muito engraado.
- Engraado como?
- Ah, a nica coisa que eu consegui dizer foi: "At que enfim, amor!"
- Jura que voc disse isso?
- O que  que voc ia dizer, Alice?
- Que nojo, amor! - sugeriu Nanda.
- Que fofo, amor! - disse Alice.
- Fala srio, amor! - opinou Duca.
Rimos juntas do rumo que a conversa estava tomando.
- O que foi que ele disse depois do "at que enfim"? - perguntou Alice.
- Ele fez piada: "M, no sabia que voc estava esperando ansiosamente por esse dia. Posso fazer isso todo dia pra voc."
- Ele estava de frente ou de costas pra voc? - questionou Duca.
- De costas, eu estava massageando os ombros dele.
- Jura? Ele estava com o punzador voltado para voc? Eceeeca! - exclamou Nanda.
- Punzador? Pra, Nanda! Bunda no  uma palavra feia,  at bonitinha. - bronqueou Duca.
- Conta, Malu! Depois que ele fez a brincadeira, como ficou o clima?
- Ele riu, todo vermelhinho de vergonha. Eu ri com ele. Ele pediu desculpas, eu dei um monte de beijinhos nele e a gente ficou a
braadinhos um tempo.
- Fedeu? - quis saber Nanda.
- No. Ele  to iluminado que at o pum dele tem cheiro de luz. Ou seja, no tem cheiro. ... O pum do meu namorado no fede ne
m cheira.
- Pra! - divertiu-se Duca.
- Que mentira! - riu Alice.
-  srio! T, pra no dizer que no teve cheiro, posso contar pra vocs que o pum do Gus deixou o quarto com aroma de... jasmim
.
- Jasmim?! - indignou-se Duca.
- Eu sabia que a paixo era cega, mas que ela no tinha olfato... isso  novidade! - Nanda encerrou o assunto.

20 ANOS

Gente intrometida

A minha me e a minha av sempre gostaram de buraco. Uma vez por semana elas se reuniam com as amigas chegadas a um carteado par
a jogar e botar conversa fora. Encaravam
aquilo como um jogo srio, mas tambm um momento para beber vinho e tagarelar como se no houvesse amanh. Em alguns dias a casa
 ficava lotada, com uma mesa da Terceira
Idade (que minha av preferia chamar de Melhor Idade) e outra da Gostosa Idade (como minha me se referia aos 40 e uns dela e da
s amigas). Eu, claro, tentava arrumar
algo pra fazer na rua e no ser abduzida para o mundo do baralho. Quando no conseguia, ficava no quarto com meus irmos navegan
do na web ou jogando algum videogame.
Num desses dias de carteado eu estava bem tristinha. O palhao do Cadu, meu namorado de uns quatro meses, tinha sado com os ami
gos na noite anterior e eu s soube
no dia seguinte. E ele no foi para um programinha masculino, tipo Maraca ou jogo de sinuca, no! Foi para um barzinho cheio de
gente bonita no Leblon, no me levou
sei l por qu. Disse que ia ficar em casa estudando. Palhao! Mil vezes palhao! Ele s no esperava que uma amiga minha estive
sse no mesmo lugar. Ela me disse
que ele estava todo animadinho, todo sorrisos, alegre, feliz como nunca, cercado de amiguinhos idiotinhas.
Poxa, ele podia ter me dito que ia sair com os amigos, n? Eu no ia ficar chateada, nunca fiz o tipo ciumenta, cime no  a mi
nha praia, sempre achei que ambos
os lados merecem ter momentos nicos com os amigos. Mas como ele no contou, pior!, mentiu!, eu estava pau da vida.
O meu celular tocou. Era o palhao. A Malena estava ao telefone
h horas com uma amiga, ento sa do quarto pra falar no corredor.
- Custava ter me dito a verdade? - fui logo dizendo.
- Que verdade? - o palhao cnico se fez de palhao desentendido. - Que em vez de ver um filme comigo voc preferia sair com seu
s amigos?
- Como  que ? - indagou o palhao, bancando o indignado.
- Eu sei de tudo, Cadu. Sei que voc estava ontem  noite no Leblon com aquela camiseta com uma prancha estampada que eu te dei,
 com o Z, o Joo, o Thiago e o Lucas.
- Fala srio, amor! De onde voc tirou essa idia? - dissimulou o palhao.
- No vem com fala srio, amor pra cima de mim, no, Cadu! E pra de mentir porque eu odeio mentira! A Clarisse me contou tudo!
Nesse momento, senti que o burburinho da sala, onde estavam minha me, minha av e amigas, havia parado por completo. A sala ago
ra parecia uma biblioteca, silncio
total.
- Que fofoqueira! - entregou-se o palhao.
- Fofoqueira nada! - indignei-me.
- Ela  sua amiga, isso sim! - gritou minha av da sala.
Levei um susto.
- Homem  tudo igual, no presta desde novinho - concordou Zlia, amiga da famlia h anos.
Resolvi aproveitar a deixa.
- A Clarisse  minha amiga! Ela s quer o meu bem!
- Ela quer separar a gente, isso sim! Invejosa! Barangona!
Encalhada! - enfureceu-se o palhao.
- Eu vou virar sapato e namorar a Clarisse! Fala isso que assim esse idiota pra de atormentar voc, Maria de Lourdes! No ench
e o saco, garoto de meia-tigela!
- gritou dona Amelinha, uma velhinha empinada, ex-bailarina, que sempre pareceu ser a mais recatada e elegante de todas, num sur
to que me surpreendeu e me deixou
de olhos arregalados.
- Nada disso! Volta pra camiseta! Que audcia! Onde j se viu? Uma tremenda falta de respeito ele ir pra gandaia com os amigos f
anfarres com uma camiseta que voc
deu com tanto amor! - opinou dona Ruth, de uns 75 anos, que eu nunca tinha visto na vida.
- E pede ela de volta! Se estiver em bom estado eu dou pro meu afilhado - berrou Odete, amiga de anos da minha me. .
Achei tima a sugesto das senhoras que estavam completamente envolvidas na minha discusso amorosa.
- Precisava ter ido com a camiseta que eu te dei? Se voc tivesse ficado com algum a minha camiseta agora estaria com o cheiro
da mocria. Uma camiseta to linda,
que eu te dei s porque voc gosta de pegar onda.
- Mas  pssimo surfista! Pssimo surfista! Fala isso, Maria de Lourdes! - gritou minha me.
- Mesmo sendo pssimo surfista! Pssimo surfista! - disse eu, feliz por espezinhar o palhao aps o conselho materno.
- No peguei ningum, Malu - assegurou o palhao. - Nem ia pegar, no fui com essa inteno.
- Ento por que foi com a camiseta? Voc sabe que fica bem gatinho com ela.
- S peguei porque era a primeira da pilha na gaveta - respondeu o palhao insensvel.
- E por que no me chamou pra ir com vocs? - quis saber eu.
- Por que esses pastis esto to murchos, hein? So de ontem, ngela Cristina? - quis saber minha av.
- Claro que no, mame, fiz hoje  tarde.
- Esto uma porcaria. Uma por-ca-ri-a! - estrilou Zlia.
- No  de admirar que com uma me relaxada dessas a Maria de Lourdes seja relaxada nos relacionamentos.
- Dona Amelinha! Que absurdo! Eu no sou nada relaxada!
- , sim, senhora, no discuta comigo! Relaxada, relaxada, relaxada! Olha a, sua filha tambm  e por isso o cara meteu um par
de chifres na testa dela - concluiu
dona Amelinha.
- Dona Amelinha! Eu no sei se ele me chifrou! - reagi, exaltada, tapando o telefone para que o Cadu no ouvisse.
- Tadinha, Maria de Lourdes  do tipo que vai sofrer com homem pro resto da vida - decretou Zlia.
- Ah, isso vai - concordou Odete.
- Droga! No devia ter jogado fora o s de copas! Podia ter feito uma trinca.
- Cala a boca, Zlia! Pra de entregar o jogo! - manifestou-se Odete. - D pra ouvir a conversa da Maria de Lourdes e jogar ao m
smo tempo! Ateno nas cartas!
Precisei intervir de novo, dessa vez, apareci na sala para acalmar a mulherada exaltada que metia a colher no meu relacionamento
.
- Gente! Eu t falando! Silncio, por favor! - pedi, irritada. - E ento, posso saber por que voc no me chamou, Cadu?
- Porque eu estava com o Thiago. E voc no gosta do Thiago. Ele queria conversar e...
- Quem disse que eu no gosto do Thiago? - perguntei.
- Caguei pro Thiago! Caguei baldes pro Thiago! - berrou dona Amelinha, inflamada, do alto dos seus quase 100 anos.
Ignorei essa parte.
- Thiago  um libertino! Um libertino! - opinou minha av, com as vsceras.
Ignorei essa parte tambm. At porque no tinha idia do que era libertino. E a minha av no conhecia o Thiago.
- A base de uma relao  a sinceridade, Cadu - desabafei.
- Boa, Maria de Lourdes! - apoiou-me Suzana, amiga de poucos dias da minha me, quietinha at ento. - Esse vinho t com gosto d
e vinagre, hein?
- T, ? Comprei na promoo...
- Eu te avisei, ngela Cristina, eu te avisei, vinho em promoo  uma porcaria! Vai dar dor de cabea em todo mundo! - enfatizo
u minha av.
- A gente sempre contou a verdade um pro outro - disse eu, j meio zonza com tanto bafaf. - E agora? Como  que eu vou fazer pr
a confiar em voc novamente, hein?
- Hein? - exaltou-se Zlia. - Repete, Maria de Lourdes!
- E meus sentimentos, como  que ficam? Voc acha que eu sou um capacho que voc pisa, pisa e eu continuo te amando? No mesmo!
Eu sou uma menina de respeito, muito
direitinha! Vai cantar em outro galinheiro, seu safadinho! - disse dona Amelinha.
- Vai catar coquinho! - gritou dona Ruth.
- Fecha a canastra, Ruth! , gente, presta ateno no jogo! - exasperou-se Odete.
Aquela discusso com tantas participaes especiais estava me enlouquecendo. Fui para a sala novamente e pedi silncio para a mu
lherada.
- Shhhh!!!! - fiz, enrgica.
Voltei para o corredor.
- Ento, Cadu, como eu estava dizendo...
- Est tudo acabado entre ns! - gritou minha me, ignorando meu apelo de silncio.
- E no me procura mais! Seu delinqentezinho sem carter, devasso e mentiroso! - acrescentou minha av. - Minha filha, essa sam
ambaia est horrorosa, voc no tem
mo pra planta, impressionante. Tsc, tsc, tsc... E pensar que eu sou tima com tudo o que  verde, que desgosto...
- Eu sou pssima dona de casa, mame.
- Ah, isso  mesmo. No foi  toa que Armando te largou. Maria de Lourdes vai pelo mesmo caminho. No vai ter homem que agente
essa menina - rogou minha av.
Ainda sem acreditar que estava naquela situao nonsense, tentei ignorar as vozes da sala e continuar com o Cadu:
- Acho que a gente precisa conversar ao vivo...
- Pra qu? , garota burra! - gritou dona Amelinha.
- Vai voltar pra ele que nem um cachorrinho. Mulher  tudo igual, viu? - completou Odete.
- Pra, gente! Ele  meu namorado! E tem que se explicar direito - eu pedi a compreenso das senhoras, que a essa altura tinham
esquecido a jogatina. O meu dilogo
estava muito melhor do que o marasmo das cartas.
- Quem  que t a? - perguntou o palhao.
- As amigas da minha me e da minha av.
- E suas amigas! S queremos o seu bem! Vimos voc nascer, te pegamos no colo e trocamos muita fralda sua suja de coc. Diz isso
 pra esse traidor, Malu! - acrescentou
Zlia.
- Malu, no, Zlia. Maria de Lourdes, por favor - corrigiu minha me.
Ignorei as duas.
- A gente pode se ver amanh?
- Pode - respondeu o palhao, mais calminho.
- E leva todos os presentes que eu, idiota, comprei pra voc com a minha mesada. Quero tudo de volta - gritou minha me.
- Eu te amo - declarou-se o palhao, meloso.
- Eu no sei se te amo mais.
- Claro que eu no te amo mais! Eu no te amo maaaaaiiisss!!! , garota buuurra! - xingou-me de novo dona Amelinha. Suuuuper fof
a. Continuei com o Cadu:
- Preciso olhar no seu olho e entender o porqu dessa mentira. Eu no tolero mentira.
- Eu no perdo mentira! Perdo tudo, menos mentira, seu bostinha! - meteu-se dona Amelinha de novo na minha conversa. - Perdoar
  muito mais forte que tolerar!
Maria de Lourdes  pssima nos argumentos. , garota sem iniciativa! Sem vocabulrio! No acredito, Zlia, voc deixou passar o
quatro de paus!
- Voc t muito brava comigo? - quis saber o palhao, fazendo voz de criana carente.
- Brava, triste e magoada.
- E me sentindo trada! Trada, seu filho-d...!
- Dona Amelinhaaa! Olha a boca! A Maria de Lourdes no fala palavro! - irritou-se minha me. - As discusses dela so no salto
alto! - orgulhou-se.
Ta uma verdade. Nunca baixei o nvel nas minhas discusses. Sou uma barraqueira muito chique.
Desliguei o telefone e voltei para a sala, exausta. As vozes femininas e suas opinies exacerbadas ainda ecoavam na minha cabea
.
As mulheres estavam paradas, olhando para mim, em silncio, esperando uma frase, uma atitude, um sorriso.
- Vocs, hein? No perdoam, mesmo!
Elas riram orgulhosas.
- Obrigada pela ajuda. Vocs foram nota mil. Um pouco intrometidas demais, mas nota mil.
- E v se segue nossos conselhos, hein, Maria de Lourdes? Odeio dar conselho pra uma pessoa e v-la fazer exatamente o contrrio
. Nada me irrita mais do que isso
- disse dona Ruth, aquela que eu nunca tinha visto na vida.
No dia seguinte, continuei sem entender por que o Cadu no me disse que ia sair com os amigos e terminei com ele.
E ainda pedi a camiseta de surfista pro afilhado da Odete, que (pasme!) ligou pra cobrar.

21 ANOS

Frases que eu adoraria ter dito, mas nunca disse

Conversando com a Duca, a Alice e a Nanda chegamos  concluso de que sempre engolimos frases que adoraramos ter dito para os g
arotos ao longo da vida.
- "Voc beija mal." Nossa! Adoraria ter falado isso para o Ricardo - confessou Nanda.
- Ah, eu no. Eu adoraria ter dito para o Maurcio, aquele mauricinho de cabelo penteadinho que s falava e pensava nas qualidad
es, na comida e no amor de sua querida
mame, duas frases. As duas perfeitas: "Sua me  chata pra caramba! E tem um bafo que Deus me livre!" - revelou Alice.
- E o Afonso? Que s depois de duas semanas com ele descobri que ele nunca tinha lavado a cala jeans que usava todo dia? Adorar
ia ter dito: "Lavar a cala jeans
 bom de vez em quando, sabia?"
- P, Malu, o apelido do cara era Uma Cala, s voc no sabia! - riu Alice.
- E pro Heitor? O que voc gostaria de ter dito, Duca?
- "Voc  bem burrinho, hein?"
- E eu ia emendar com " suprfluo, no suprfulo!" - impliquei. Rimos juntas do namorado anta da Duca.
- "Hoje estou a fim de brigar sem motivo nenhum! Caramba, por que  to difcil entender isso?" - disse Alice.
- Ah, isso eu gostaria de ter dito pra todos - admiti.
- Pra mim, a melhor coisa no dita : "Outro ursinho de pelcia? Fala srio! Eu no gosto de bicho de pelcia desde que tinha 12
 anos! S serve pra acumular poeira!"
- Pra quem  essa, Nanda?
- Pro Joo, que me deu 18 bichos de pelcia em duas semanas. - Tambm, o pai dele era dono de loja de brinquedos, voc queria o
qu?
- Pois , nem gastava dinheiro comigo o palhao.
- E para o Olavo, que vivia me pedindo para espremer as espinhas dele? Adoraria ter dito: "Meu queridinho, eu no preciso ver aq
uelas coisas brancas e nojentinhas
sarem de voc. Existe um profissional chamado dermatologista. Quer o telefone do meu?"
- Putz, falou tudo! Ningum merece espremer espinha de namorado! - concordei plenamente.
- Para o Diogo eu queria ter dito na hora de terminar: "T a fim de beijar outro." Ia ser muito mais sincera - comentou Duca.
- E para o Z, que tinha aquela pana medonha e cabeluda? Quem me dera ter dito: Lamento, fofito, mas voc no passou no teste d
a praia... fica pssimo de sunga.
Vaza" - divertiu-se Alice.
- J pensou se a gente sempre dissesse a verdade? Quantas vezes no amos ter dito "Vou dar meu telefone errado; no estou nem u
m pouco a fim de ver voc de novo".
- Milhes de vezes, Malu! - concordou Nanda.
- Tem outras frases maravilhosas! - opinou Duca. - Por exemplo...
- "Voc tem um chul pavoroso." Essa era perfeita para o Felipinho.
- E eu adoraria ter dito para o mala do Sampaio, que era viciado em rock: "Eu gosto de algumas msicas sertanejas, sim, e da? V
ai encarar?" - disse eu.
Rimos juntas. Como  bom falar bobagem com as melhores amigas.
- Eu tenho uma frase tima pra Malu - disse Alice.
- Qual? - perguntei.
- "Sou meio vaca s vezes."
- "E solto pum de manh. E no  cheiroso, no" - completou Nanda.
Fiz cara de brava, mas no resisti e ca na gargalhada. As duas frases retratavam a mais pura verdade.
- Para quantos caras vocs no gostariam de ter dito: "Hoje no vai rolar nada porque eu t fazendo charminho e bancando a difc
il. Amanh ou depois rola, t?" -
perguntou Duca.
- Pra vrios! - respondi.
- Sabe o que eu queria ter dito para o Ded?
- Sei: "Voc parece um esquilo desorientado quando dana; fica sentado, por favor?" - falei pela Nanda. .
- Mas a sua frase preferida, a que voc mais disse na vida, : "Fala srio, amor!"
- Que  isso, Duca? Nunca disse isso!
Elas se entreolharam, engoliram o riso e disseram em coro:
- Fala srio, Malu!
FIM.
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Fala srio, amor! -  Thalita Rebouas


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